O evento GeriatRio 2026 colocou em pauta um tema fundamental e cercado de tabus: as barreiras para a atividade sexual no envelhecimento e a dificuldade dos profissionais de saúde em conduzir esse diálogo nos consultórios.

O silêncio nos consultórios médicos

Durante o painel, o geriatra Gustavo de Jesus Monteiro, vice-presidente da SBGG-RJ, apresentou estatísticas surpreendentes sobre o comportamento de adultos mais velhos. Pesquisas indicam que 73% das pessoas entre 57 e 64 anos são sexualmente ativas, taxa que vai para 53% na faixa de 65 a 74 anos e chega a 26% entre 75 e 85 anos. Mesmo nesse último grupo, 54% mantêm relações de duas a três vezes por mês.

Apesar da alta atividade, o desconforto persiste. Cerca de 60% dos indivíduos acima dos 65 anos não se sentem à vontade para tocar no assunto com o profissional de saúde, enquanto apenas 38% dos homens e 22% das mulheres com mais de 50 discutem o tema espontaneamente com seus médicos.

O geriatra destacou a necessidade de mudança na rotina de atendimento: “Precisamos abrir essa porta. A conversa tem que fazer parte da rotina do consultório e da Avaliação Geriátrica Ampla (AGA), assim como quando houver um novo diagnóstico, cirurgia pélvica, alteração ou ajuste de medicamento. Há pacientes que deixam de tomar um anti-hipertensivo ou antidepressivo porque a medicação interfere na sua vida sexual. Se não existe uma relação de confiança, o médico pode achar que há uma baixa adesão ao tratamento”.

Saúde física e alternativas terapêuticas

Para Monteiro, a idade avançada por si só não é o principal obstáculo, mas sim a condição física e mental. O especialista reforçou que “Mudança não é doença” e pontuou que o envelhecimento traz adaptações naturais, como menor rigidez na ereção ou desconforto na penetração.

Entre as soluções apontadas estão a revisão de medicamentos, o tratamento de sintomas como dor e depressão, o uso de lubrificantes para a síndrome geniturinária e a recomendação de posições mais confortáveis ou de um repertório sexual ampliado, que inclua carícias e masturbação.

Leia também

Prevenção de ISTs e o papel da infecção

A infectologista Thelma Flosi, do Hospital Universitário Pedro Ernesto, alertou para a necessidade de acolhimento visando a proteção contra infecções sexualmente transmissíveis. “É preciso perguntar sobre os hábitos sexuais com naturalidade e apresentar as formas de prevenção. Os dados do Ministério da Saúde mostram que a taxa de detecção de Aids entre 2014 e 2024 caiu em todas as faixas etárias, com exceção daquela acima de 60 anos”, enfatizou. Ela lembrou a importância de profilaxias como a DoxiPEP, a PEP e a PrEP, além de vacinas específicas.

O fim da infantilização do idoso

A psicóloga Ana Cristina neoplasias Nunes Barbosa, especialista em sexualidade humana, abordou a importância de tratar a vida íntima sem preconceitos morais ou infantilização. “Temos que romper com o tabu e a infantilização, que torna idosos assexuados, e debater o tema de forma madura e natural, com foco na autonomia, na saúde e no prazer. O constrangimento em esclarecer as queixas se dá, muitas vezes por falta de informação e formação adequada para seu uso na prática”, discorreu.

Por fim, a psicóloga sugeriu que os profissionais evitem perguntas diretas e fechadas, adotando abordagens mais construtivas inspiradas nos métodos clássicos de Masters e Johnson. “O caminho é validar o comportamento com outro tipo de aproximação, do tipo: qual foi a última vez que você se masturbou e teve alguma complicação? Qual foi a última vez que praticou sexo de uma forma diferente ou introduziu algo novo (por exemplo, acessórios sexuais) e isso não lhe trouxe o prazer esperado?”.