Novos casos de cura do HIV após o transplante de medula foram recentemente divulgados. Sabe como isso acontece? São pessoas que têm dois azares seguidos de uma grande sorte. O primeiro azar é contrair o HIV. O segundo é ter um câncer de células sanguíneas. A grande sorte é se curar do câncer e, como bônus, também do HIV. Sorte? Não, é ciência pura!

A resistência natural e o receptor CCR5

Há vários anos, descobrimos que algumas pessoas são resistentes ao HIV. Elas não contraem o vírus porque não existe uma porta de entrada para ele em suas células, um receptor chamado CCR5.
Quando descobrimos isso, a ciência inovou. Primeiro, criamos um medicamento para tratar o HIV que se liga a esse receptor, deixando o CCR5 sem funcionar. Depois, curamos o HIV em pessoas por meio de transplantes de medula com essas células.

O papel do transplante e da quimioterapia

Sempre suspeitamos que poderíamos curar as pessoas do HIV. Isso porque nenhuma célula definitiva do corpo humano se infecta pelo HIV; apenas aquelas células que podemos eliminar. A seguir, provamos que a cura é possível nesses casos que envolvem o transplante.
Como? Funciona assim: primeiro, matamos com quimioterapia e, às vezes, radioterapia, todas as células sanguíneas dessas pessoas para tratar o câncer. Parte dessas células também contém o HIV, que persiste no organismo.

A seguir, fechamos a porta de entrada ao vírus. Para tal, escolhemos cuidadosamente uma medula óssea resistente ao HIV para uso no transplante. Depois, contamos com a “sorte” de ter um efeito colateral raro do procedimento: a doença do enxerto contra o hospedeiro.

Quando as células usadas no transplante se revoltam contra as células da pessoa transplantada, acabam eliminando o restinho de HIV que possa existir nelas. Essa doença do enxerto contra o hospedeiro às vezes é tratada com um medicamento chamado ruxolitinibe, que tem sido usado em outros estudos que buscam a cura do HIV. Ele, de fato, diminui os reservatórios do vírus, não a ponto de curar as pessoas, mas deixando-as mais próximas da remissão.

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Histórico de pacientes e perspectivas futuras

Do paciente de Berlim ao de Kansas City — eles ficaram conhecidos pelas cidades onde foram tratados —, são, até agora, 14 pessoas curadas. E sabemos que elas estão curadas porque, mesmo interrompendo o tratamento com antirretrovirais, o vírus não volta.
Depois, os sinais de que o vírus está no corpo da pessoa desaparecem — até os anticorpos contra o HIV vão sumindo gradualmente. São indivíduos que poderiam inclusive se voluntariar para doar sangue.

Que fique claro: não se deve usar o transplante de medula para curar o HIV, pois nem sempre a estratégia funciona e há risco de morte nesse procedimento extremo, o que torna não ético utilizá-lo exclusivamente para esses fins. Mas o caminho da cura foi deflagrado. As descobertas desses e de outros tratamentos, experimentais ou não, alimentam novas perspectivas. Eu acredito que um dia viveremos em um mundo sem HIV. Para tal, precisamos da ciência. Precisamos mitigar a transmissão entre as pessoas e eliminar a transmissão de mãe para criança. Precisamos de uma vacina preventiva. E, fundamentalmente, precisamos da cura do HIV.