Há alguns anos, fui convidada por uma ONG que apoia mulheres com câncer de mama para conduzir uma roda de conversa sobre gratidão. Embora esse seja um tema que estou acostumada a abordar, por fazer parte da minha vida e dos meus estudos há mais de 15 anos, confesso que, ao chegar ao local, fui tomada por um sentimento de desconforto e constrangimento.

O desafio de falar sobre gratidão na doença

Falar de gratidão para mulheres com câncer? Que ousadia! Parece até falta de sensibilidade, pensei. Cuidadosamente, abri a conversa falando sobre o terreno fértil que pode ser criado quando nos conectamos aos pequenos e simples presentes da vida, mesmo diante de desafios que parecem intransponíveis. Estudos no campo da psicologia positiva e da neurociência vêm demonstrando os efeitos da gratidão sobre a saúde emocional, os relacionamentos e o bem-estar. A questão é: como acessar essa emoção positiva em tempos difíceis?

Relatos reais de superação e afeto

Para minha total surpresa, quando abri espaço para ouvir as mulheres e suas histórias, recebi uma avalanche de exemplos de gratidão. Uma senhora contou o quanto se sentia grata pelo apoio que estava recebendo de suas filhas e o quanto a doença a havia aproximado da família. Outra relatou que, com o câncer, passou a se ouvir mais e, assim, a estar mais conectada com seus desejos reais e essenciais. Em cada partilha, a emoção da gratidão se expandia, até ocupar toda a sala, transbordando sabedoria e resiliência.

Certamente, nenhuma dessas mulheres escolheria ter essa doença. No entanto, elas aprenderam a navegar pelo mar revolto com o leme firme e o coração desperto. Tempestades fazem parte, os desafios não são poucos, mas o que percebi é que elas aprenderam a se apoiar e a olhar para o que estavam vivendo com coragem e abertura, sem negar o medo, a tristeza ou as dificuldades.

O que a ciência das emoções positivas ensina

Essa forma de se posicionar diante da vida pode ser compreendida à luz dos estudos da psicóloga e pesquisadora norte-americana Barbara Fredrickson, referência mundial no estudo científico das emoções positivas e criadora da teoria “ampliar e construir”. Barbara mostra que emoções positivas como gratidão, amor e esperança, entre outras, não eliminam a dor nem apagam as dificuldades, mas podem ampliar, ainda que por alguns instantes, nossa capacidade de perceber possibilidades, mobilizar recursos internos e buscar apoio. Quando vivenciadas ao longo do tempo, essas emoções ajudam a construir recursos psicológicos, sociais e físicos que fortalecem a resiliência.

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Diante do câncer de mama, isso não significa, de forma alguma, manter-se positiva o tempo todo, mas reconhecer que pequenos momentos de afeto e conexão podem oferecer sustentação emocional para atravessar o medo, as incertezas e os desafios do tratamento.

Resiliência não nasce da negação da dor

A vida é uma caixa de surpresas e não podemos controlar todos os acontecimentos. O Outubro Rosa é um período para intensificar a conscientização sobre a prevenção e a detecção precoce do câncer de mama, mas também pode abrir espaço para conversarmos sobre resiliência. Ela não nasce da negação da dor nem da obrigação de permanecer positiva. Constrói-se quando encontramos recursos para atravessar o que dói, nutrimos conexões que importam, recebemos apoio e permitimos que pequenos momentos de amor, esperança e gratidão também tenham lugar.

Aquela roda de mulheres validou, com histórias reais, o que a ciência das emoções ensina: a gratidão não impede a tempestade nem acalma todas as ondas, mas pode nos ajudar a reconhecer, em meio ao mar revolto, aquilo que sustenta a vida.