Um grupo de vinte especialistas médicos do Brasil elaborou o primeiro consenso nacional sobre o tratamento para a deficiência de vitamina B12, publicado recentemente na revista científica eClinicalMedicine, que pertence ao grupo The Lancet. O documento analisou as diferentes vias de reposição disponíveis para entender qual delas apresenta melhores resultados para os pacientes.
Eficácia comparada entre comprimidos e injeções
De acordo com as conclusões do material, de maneira geral, as estratégias de administração oral, sublingual ou intramuscular funcionam da mesma forma. Os dados demonstraram que todas conseguem normalizar os níveis do nutriente no sangue sem que nenhuma delas apresente superioridade quando a meta é aliviar os sintomas ou elevar o bem-estar geral.
No entanto, existem cenários específicos que exigem avaliação individualizada, conforme pontua o médico Ricardo Cohen, que liderou o estudo e atua como diretor do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
“Se o paciente não tem dificuldade para absorver nutrientes, podemos usar qualquer via. Mas, se ele tem doenças no intestino delgado, doenças inflamatórias intestinais ou está no pós-operatório de cirurgias bariátricas — situações que podem comprometer essa absorção —, a via intramuscular ou sublingual pode ser melhor do que a oral”, exemplifica o especialista.
O perigo da febre das injeções desnecessárias
A publicação chega em um momento em que a aplicação de vitaminas ganhou forte apelo popular nas redes sociais, impulsionada por influenciadores digitais que promovem a soroterapia. Essa prática consiste na infusão intravenosa de coquetéis de nutrientes até mesmo em pessoas saudáveis, com a promessa de absorção mais ágil.
Sobre essa tendência, o endocrinologista Fábio Moura, que integra a diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e participou do consenso, faz um alerta importante.
“Hoje há um boom de pessoas vendendo qualquer coisa injetável para todo mundo. É preciso dizer que, embora existam pacientes que precisem de medicações por via parenteral, eles são exceção, não regra”, destaca.
Quem faz parte dos grupos de risco
A carência de vitamina B12 atinge diferentes parcelas da população com intensidades variadas. As estatísticas apontam que o problema acomete entre 6% e 30% dos idosos, de 10% a 30% dos indivíduos diagnosticados com gastrite atrófica crônica e de 5% a 40% daqueles que realizaram procedimentos de cirurgia bariátrica.
Entre os sinais de alerta provocados pela falta do nutriente estão o desenvolvimento de anemia, lesões nos nervos, complicações na medula espinhal, dificuldades cognitivas de raciocínio e memória, além de manifestações clínicas que lembram quadros de demência.
Critérios para início do tratamento
O documento estabelece que a intervenção terapêutica é recomendada prioritariamente quando os exames laboratoriais apontam taxas abaixo do padrão de referência, acompanhadas ou não por outras alterações, ou em condições específicas obrigatórias, como na anemia perniciosa e no pós-bariátrico.
“Todos os especialistas concluíram que, para tratar a deficiência de vitamina B12 nos pacientes de risco, nós não esperamos a manifestação clínica. Tratamos quando os níveis estão baixos”, ressalta Cohen.
Para monitorar o sucesso da terapia, os médicos sugerem ir além da simples dosagem sérica da vitamina na corrente sanguínea. Como os índices no sangue sobem rapidamente logo no início da suplementação sem garantir que o nutriente penetrou nas células, 95% dos profissionais concordam que o dado isolado tem significado clínico incerto.
O ideal é monitorar substâncias como o ácido metilmalônico e a homocisteína, que se acumulam no organismo quando há falta real da substância a nível celular.
“Para os grupos de risco, mesmo que a B12 esteja normal, mas outros exames indicam deficiência funcional, é preciso tratar”, explica Cohen. “Mas isso não vale para a população em geral”, reforça.
População geral não deve suplementar
O texto enfatiza que indivíduos sem fatores de risco ou sem o diagnóstico formal da deficiência não devem fazer uso de suplementos vitamínicos por conta própria, pois o excesso não gera vantagens para a saúde e pode causar malefícios.
“A população em geral, que não tem nenhum fator de risco para deficiência de B12, não deve tomar, porque vai perder tempo”, adverte o médico Ricardo Cohen.
“Excesso de vitamina não traz nenhum benefício comprovado para a saúde. É provável, na verdade, que tenha malefícios”, complementa Fábio Moura.
Por fim, os especialistas lembram que a nutrição equilibrada é a principal forma de obter o nutriente através de alimentos de origem animal, como carnes, ovos e laticínios, enquanto vegetarianos estritos e veganos devem buscar orientação profissional para planejar a dieta de forma segura.










