A saúde pública figura entre as principais preocupações dos eleitores brasileiros neste período de votação, ocupando espaço central nos planos de governo dos candidatos ao Palácio do Planalto, especialmente no que tange ao futuro do Sistema Único de Saúde (SUS).
Radiografia das propostas eleitorais Às vésperas do primeiro turno, especialistas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e da ACT Promoção da Saúde analisaram, de forma cega e sem identificar os proponentes, as diretrizes de doze postulantes ao cargo máximo do Executivo federal. Entre as medidas mais recorrentes nos documentos estão a digitalização de serviços, o uso de inteligência artificial na triagem e o fortalecimento da atenção básica.
Desafios na implementação das promessas Apesar da recorrência de temas como a criação de uma fila única nacional e digital, especialistas apontam gargalos operacionais relevantes para a execução dessas ideias.
A cientista social Julia Pereira ressalta que a gestão atual dos atendimentos é descentralizada entre estados e municípios, o que dificulta a centralização.
“Sem que Unidades Básicas de Saúde estejam conectadas à rede de média e alta complexidade e sem que os prontuários conversem entre si, a fila única fica sendo um painel bonito sobre uma realidade que continua fragmentada por baixo”, diz.
No tocante ao emprego de inteligência artificial para otimizar fluxos, a pesquisadora faz um alerta sobre a necessidade de bases sólidas.
“A IA depende de dados organizados, protocolos clínicos claros e coordenação entre os níveis de atenção para trabalhar”, considera. “Isso pode até piorar decisões clínicas, não melhorar”, alerta.
Visão preventiva e lacunas estruturais Por sua vez, Marcello Baird avalia que a maioria dos projetos prioriza uma abordagem assistencialista em detrimento de medidas voltadas à prevenção de enfermidades e à promoção de hábitos saudáveis.
“As propostas aparecem em detrimento de ações que, efetivamente, evitem o adoecimento da população”, considera. “Estamos convencidos de que prevenir significa investir na desoneração do SUS, no crescimento econômico, na proteção ao meio ambiente e na redução de desigualdades acentuadas por determinantes como raça, gênero e escolaridade”, afirma.
Perspectivas para o futuro do sistema Além da viabilidade técnica e financeira, os analistas destacam que o envelhecimento populacional exigirá dos futuros gestores capacidade de coordenação federativa e sustentabilidade orçamentária para garantir que os projetos anunciados saiam do papel.










