A transição hormonal feminina que antecede a interrupção definitiva das regras ainda é cercada de desinformação nos cursos tradicionais de medicina, afetando diretamente o diagnóstico precoce e a qualidade de vida das mulheres.
A lacuna na formação médica e o desafio do diagnóstico
A médica Heather Hirsch, fundadora da Clínica de Menopausa e Meia-Idade da faculdade de medicina de Harvard e autora de Guia de sobrevivência da menopausa, decidiu se especializar no tema após notar que a educação sobre a saúde feminina nas universidades praticamente encerrava o assunto na gravidez e no parto.
“Não é que a perimenopausa e a menopausa fossem negligenciadas – simplesmente estavam ausentes dos cursos de medicina”, afirma a autora, revelando que sequer percebeu os próprios sinais da fase inicial.
Enquanto a menopausa possui um marco claro de um ano sem menstruação, a etapa anterior apresenta flutuações semanais que tornam exames de sangue inconclusivos. “Enquanto a menopausa tem um critério diagnóstico claro – um ano sem menstruação –, la perimenopausa é muito mais difícil de definir, porque um exame de sangue capta os níveis hormonais de um dia, quando eles estão mudando de uma semana para a outra. O resultado? As mulheres ouvem que seus níveis sanguíneos estão normais, o que só faz com que elas passem a duvidar de sua própria percepção. Isso atrasa o tratamento”, enfatiza.
Mitos comuns e a polêmica da reposição hormonal
O livro lista crenças equivocadas frequentes, como a ideia de que a terapia de reposição hormonal é insegura. A especialista aponta que o receio generalizado nasceu de uma pesquisa de 2002 com falhas metodológicas que apontou risco aumentado de câncer de mama.
“Lidamos com as consequências até hoje”, reconhece Hirsch. Ela pontua contraindicações reais — como câncer de mama ativo, trombose espontânea, infarto recente ou cirrose —, mas ressalta que histórico familiar ou pessoal da doença não impedem necessariamente o tratamento.
Sobre o planejamento a longo prazo, a especialista resume: “Hoje vivemos 30% das nossas vidas na pós-menopausa. Como lidamos com as mudanças hormonais determinará a trajetória de nossa saúde nas décadas seguintes”.
Lista de sintomas e impactos na saúde sexual
A obra detalha 34 manifestações clínicas da perimenopausa, incluindo fadiga, ondas de calor, alterações de paladar, ganho de peso e até zumbido nos ouvidos decorrente da queda de estrogênio.
No campo da intimidade, a médica destaca que o desejo envolve fatores ambientais e relacionais, além da fisiologia. “Se você está cuidando de um parente idoso ou doente, se está preocupada com a saúde mental do seu filho, se tem problemas financeiros – ou qualquer combinação desses fatores –, tudo pode ter impacto em sua vida sexual e libido”, contextualiza.
Para a rotina familiar, ela ilustra com bom humor: “No momento, minha casa parece o lugar menos sexy possível, com brinquedos em cima da cama, mochilas e sapatos por toda parte”. Como alternativas, sugere o uso de lubrificantes, estrogênio vaginal tópico, cuidado com o assoalho pélvico e autoestimulação.










