A prática de uma aula de spinning em uma unidade da rede Velocity resultou na internação hospitalar da editora de arte Juliana Krauss, que estava sem rotina de exercícios físicos regulares há cerca de três anos, mas mantinha o hábito de pedalar longas distâncias por São Paulo. Confiante no próprio preparo, ela acreditava que os 45 minutos na bicicleta ergogênica seriam fáceis.

Falhas no atendimento inicial No estúdio da Vila Olímpia, nem ela nem um amigo — os únicos estreantes da turma — receberam atenção especial ou orientações prévias do professor, apesar do uso de pulseiras identificadoras. Durante o exercício, ao notar as pernas pesadas e doloridas, a designer permaneceu sentada na maior parte do tempo, elevando a resistência da bike para compensar o ritmo.

“Quando acabou a aula e eu desci da bike, percebi que tinha alguma coisa muito errada, porque não estava conseguindo mais andar”, conta. “Realmente não conseguia ficar com a perna estendida. Ela meio que falhava.”

Nos dias posteriores, a dor intensa nas coxas dificultou movimentos básicos como deitar, levantar e usar o banheiro. Na sexta-feira, três dias depois, ela notou a urina com tom de Coca-Cola.

“Na hora, eu pensap que tinha dado muito ruim, que tinha afetado os meus rins“, relatou. “Não fazia ideia que o exercício físico podia fazer meu corpo chegar nesse estado“, lembra.

O diagnóstico de rabdomiólise No pronto-socorro, os exames apontaram níveis altíssimos de creatinoquinase (CPK), enzima marcador de lesão muscular, confirmando o quadro de rabdomiólise que exigiu cinco dias e meio de internação.

“A rabdomiólise tem relação com a intensidade e duração do exercício, mas o ponto chave é a capacidade física da pessoa“, pontua o médico do esporte Cadu Viterbo. “Há gente que corre uma maratona por dia e não vê problema, porque tem o corpo preparado para aquilo, mas outras podem desenvolver a condição após uma aula mais intensa”, completa.

Apesar de o número de casos crescer devido à popularização de treinos de alta intensidade e maior rigor médico, o Brasil ainda carece de dados oficiais sobre a frequência do problema.

Mecanismo e lesão muscular A rabdomiólise consiste na degradação rápida de fibras musculares com o extravasamento de substâncias como mioglobina e CPK para a circulação sanguínea.

“As pessoas que estão mais condicionadas ou já estão acostumadas a determinados exercícios têm fibras mais fortes, mais resistentes àquele padrão de movimento”, explica Viterbo.

O perigo surge quando o esforço supera a adaptação fisiológica, seja em sedentários ou atletas.

“Se você realiza um exercício mais intenso, muito mais longo, em uma condição diferente de temperatura, ou de duração prolongada, isso pode ultrapassar a capacidade do seu corpo e a lesão de fibras ser maior”, explica.

O conteúdo liberado na corrente sanguínea sobrecarrega a filtração. “Isso pode levar a uma lesão renal aguda, principalmente porque o paciente também desidrata por causa do exercício”, alerta o médico, ressaltando que casos graves podem requerer diálise.

Identificação dos sintomas Diferente da dor muscular tardia e localizada, comum após o esforço e surgida entre 24 e 72 horas, a rabdomiólise manifesta-se de forma sistêmica e imediata.

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Entre os sinais estão dor extrema, fraqueza, inchaço, mal-estar e alteração drástica na cor da urina.

“A pessoa fica mais letárgica e isso pode acontecer quase que imediatamente após o exercício”, explica Viterbo. “Já as dores normais costumam aparecer de 24 a 72 horas após o treino, e são bem localizadas”, completa o médico.

“A grande diferença para a dor muscular comum é que a rabdomiólise tem um comprometimento sistêmico, principalmente renal, o que é o mais preocupante”, destaca o médico.

Prevenção e limites do corpo A recomendação principal envolve progressão gradual e respeito aos limites individuais, lembrando que o condicionamento prévio não blinda totalmente o praticante.

“Estar fisicamente ativo não te protege 100%. Diminui o risco, sim, mas não elimina a chance de ter”, alerta o médico do esporte.

Hidratação correta e cautela em dias quentes também são essenciais, além de rever a cultura da exaustão.

“A gente tem que abandonar a ideia de que o treino só é eficiente quando a pessoa está exausta, quando ela supera seus limites”, defende Viterbo, reforçando que a consistência supera o esforço extremo.

Posicionamento da rede Velocity Em nota, a Velocity declarou possuir protocolos de acompanhamento para ocorrências de saúde e que gestores contatam alunos diagnosticados para apurar o contexto do treino. A marca omitiu estatísticas de incidência por privacidade, classificando os episódios como pontuais, embora existam relatos públicos em plataformas de reclamação.

A empresa afirmou que os instrutores orientam iniciantes antes da aula e acompanham a carga e postura, o que diverge do relato de Juliana Krauss. Questionada sobre turmas exclusivas para estreantes, a rede defendeu o modelo misto com ajustes individuais e confirmou a aplicação prévia de questionários de saúde (PAR-Q), sem o uso de termo de consentimento específico para rabdomiólise.