O XXXII Congresso Brasileiro de Neurologia (Neuro 2026), realizado entre 7 e 10 de outubro, trouxe à tona discussões cruciais sobre a saúde cerebral feminina e os perigos do acidente vascular cerebral, conhecido popularmente como derrame. Durante o evento, a médica Letícia Januzi de Almeida Rocha, neurologista do Hospital Universitário da Universidade Federal de Alagoas (HUPAA-UFAL) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de AVC, apresentou dados importantes sobre como essa condição afeta o público feminino de maneira distinta e quais ameaças costumam passar despercebidas.
Diferenças biológicas e sintomas atípicos
As características fisiológicas da mulher exigem uma avaliação médica diferenciada, que leve em conta todo o histórico vascular e reprodutivo ao longo da vida. A especialista destacou que os sinais de alerta no sexo feminino muitas vezes fogem do padrão tradicional, o que atrasa o diagnóstico e o socorro médico.
“Quando se trata do AVC, homens e mulheres diferem bastante. Há fatores sexuais específicos da trajetória feminina, como as alterações hormonais e a reprodução, que criam diversos tipos de exposição. Até os sintomas de um acidente vascular cerebral às vezes vêm acompanhados de queixas atípicas quando o paciente é mulher: fraqueza generalizada, confusão mental, dor de cabeça ou enxaqueca, o que contribui para a demora no atendimento”, afirmou a médica.
Fases da vida e o impacto vascular
O fenótipo vascular, resultado da interação entre genes e ambiente, sofre influências marcantes em diferentes momentos da jornada da mulher. Na puberdade, a primeira menstruação precoce (antes dos 9 anos) ou tardia já serve como um sinal de alerta. Já na idade fértil, o uso de contraceptivos com alta dose de estrogênio eleva o perigo, especialmente para fumantes, hipertensas ou quem sofre de enxaqueca com aura acima dos 35 anos.
A gravidez representa um momento crítico para o organismo feminino. “É um teste de estresse metabólico, especialmente no terceiro trimestre”, diz a médica. Quadros como histórico de pré-eclâmpsia duplicam o risco de AVC a longo prazo, além de condições como diabetes gestacional, insuficiência placentária — quando a placenta falha em fornecer oxigênio e nutrientes adequados ao feto — e o parto prematuro antes de 37 semanas.
Com a chegada da menopausa, a queda brusca na produção de estrogênio altera profundamente a saúde dos vasos sanguíneos. Enquanto a incidência de AVC é 30% maior em homens até os 55 anos, a situação se inverte quando o efeito protetor hormonal feminino desaparece na velhice, somando-se ao envelhecimento vascular natural.
Agravantes e comorbidades sistêmicas
Outros problemas de saúde que vão além do sistema circulatório também exigem atenção redobrada dos médicos. A enxaqueca com aura, marcada por flashes de luz ou visão embaçada, a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), a endometriose — vista como um processo inflamatório sistêmico — e a insuficiência ovariana prematura antes dos 40 anos são fatores que ampliam a rigidez arterial e o risco cardiometabólico.
“Os fatores de risco comuns a ambos os sexos – como hipertensão, fibrilação atrial ou diabetes – se manifestam com mais intensidade nelas. As evidências sugerem que, nas mulheres, o diabetes aumenta em 27% as chances de um AVC”, detalhou Rocha.
Compreender essas particularidades é fundamental para aprimorar a prevenção, garantir diagnósticos precoces e reduzir os impactos severos do acidente vascular cerebral na população feminina.










