A promessa inicial de quem escolhe as profissões da saúde costuma ser pautada pelo desejo genuíno de cuidar, auxiliar e amenizar o sofrimento alheio. Contudo, persiste uma cultura clínica preocupante que ainda viabiliza a marginalização, o julgamento e a indiferença de enfermos justamente nos espaços onde o acolhimento deveria prevalecer.
O estigma por trás de dores invisíveis
A fibromialgia surge como um exemplo contundente dessa realidade, afetando majoritariamente o público feminino por meio de fadiga e dores generalizadas que frequentemente escapam dos exames convencionais. Apesar de ser reconhecida cientificamente, a condição ainda enfrenta forte resistência e barreiras nos serviços de atendimento. Uma revisão sistemática publicada em 2025 identificou preconceitos, estereótipos e questionamentos sobre a credibilidade de pessoas com fibromialgia entre diferentes profissionais da saúde. Pesquisas adicionais apontam a existência de um estereótipo perverso que rotula a mulher como alguém que “reclama demais” e cuja dor seria de fundo emocional.
A dinâmica do gaslighting médico
Esse cenário escancara a prática do gaslighting médico, caracterizada pela invalidação sistemática das vivências do enfermo. O fenômeno ocorre quando os sintomas são minimizados ou rotulados automaticamente como estresse ou ansiedade. O problema se manifesta por meio de frases recorrentes nos consultórios:
“Está tudo normal.” “Você não tem nada.” “Isso é psicológico.” “Você precisa parar de prestar tanta atenção no seu corpo.” “Se fosse realmente grave, apareceria no exame.”
Depois de ouvi-las repetidamente, uma pessoa pode começar a duvidar de si mesma. Pode passar a questionar a própria dor. Pode sentir vergonha de procurar ajuda. Pode acreditar que está exagerando. Isso é cuidado?
A verdadeira ciência baseada em evidências
A medicina baseada em evidências exige rigor científico, mas também demanda escuta atenta ao histórico e aos relatos individuais. A definição clássica da prática integra dados científicos com a vivência clínica e as preferências do paciente. Ignorar a narrativa de quem sofre não significa aplicar a ciência, mas sim descartar uma fonte preciosa de dados clínicos. O sofrimento não depende de alterações laboratoriais para exigir atenção médica.
O peso do preconceito de gênero
Historicamente, as manifestações físicas das mulheres foram associadas a fragilidades emocionais e exageros. No caso da fibromialgia, a dor invisível se choca com o viés de gênero, transformando pacientes persistentes em alvos de rótulos pejorativos. O texto técnico aponta que a ciência permite posturas mais transparentes e éticas diante da dúvida diagnóstica:
“Eu ainda não sei exatamente por que você está sentindo isso.” “Precisamos investigar outras possibilidades.” “Esse exame não explica sozinho a intensidade dos seus sintomas.”
O erro reside em transformar limitações diagnósticas em sentenças contra o paciente.
Repensando o papel do profissional de saúde
Por fim, é preciso questionar a eficácia de discursos centrados no cuidado quando a escuta ativa é negligenciada. A reflexão proposta por Mariana Schamas-Esposel, BSc em Cinesiologia, pós-graduada em dor, coordenadora do curso Dor e Movimento – HCX-USP, convida a categoria a mudar o olhar sobre quem busca ajuda:
O que essa pessoa está tentando me dizer que eu ainda não consegui compreender? Por que será que essa pessoa está agindo assim? Como posso ajudá-la?
A essência do atendimento humanizado reside na capacidade de fazer com que o paciente realmente sinta que está sendo amparado ao deixar o consultório.










