Uma comerciante foi presa em flagrante na quarta-feira, 14, em Porto Alegre (RS), após um cliente denunciar ter encontrado um rato morto dentro de um bolo comprado no estabelecimento. Segundo a Polícia Civil, o consumidor chegou a comer parte do alimento antes de perceber a presença do roedor.
Fiscalização e interdição
Durante a fiscalização, foram encontradas fezes e urina de roedores em diferentes pontos do comércio, além de produtos vencidos e condições inadequadas de higiene, segundo informações divulgadas pela imprensa local. Duas unidades da mesma empresa foram interditadas pela vigilância sanitária. O episódio chama a atenção para os riscos desse tipo de contato, visto que roedores podem carregar micro-organismos capazes de contaminar alimentos e superfícies.
Riscos de infecção alimentar
Em primeiro lugar, a presença de um roedor, por si só, não significa que haverá uma infecção. Portanto, não necessariamente o cliente de Porto Alegre irá adoecer. Se o alimento estiver contaminado por micro-organismos capazes de provocar infecções, o problema mais imediato tende a ser gastrointestinal, como diarreia, cólicas, náuseas, vômitos e, às vezes, febre. O risco aumenta conforme o tipo e a quantidade de contaminantes ingeridos, bem como as condições de saúde de quem consumiu o alimento. Segundo estimam os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês), existem mais de 30 doenças — causadas por vírus, bactérias e outros parasitas —, transmitidas direta ou indiretamente por roedores.
Doenças transmitidas por roedores
Entre as preocupações nesse caso está a salmonelose, infecção intestinal causada por bactérias do gênero Salmonella. Esses micro-organismos podem contaminar alimentos por diferentes vias, inclusive por meio de roedores que circulam em ambientes onde há comida exposta. Os sintomas do quadro incluem diarreia, febre e cólicas abdominais. Em geral, eles aparecem de algumas horas a alguns dias após a ingestão do alimento contaminado. Na maioria dos casos, a infecção melhora em cerca de uma semana, mas pode provocar complicações, especialmente em crianças pequenas, idosos e pessoas com o sistema imunológico comprometido.
Outra doença que merece atenção é a famosa leptospirose, causada por bactérias do gênero Leptospira. A doença está associada principalmente ao contato com água ou lama contaminadas pela urina de animais infectados, sobretudo em situações de enchentes. A entrada da bactéria ocorre por meio da pele lesionada ou pelas mucosas, como os olhos, nariz e boca. A ingestão de alimentos contaminados, portanto, não é uma forma comum de transmissão, embora também possa acontecer. A leptospirose pode provocar febre, dor de cabeça e dores musculares, frequentemente intensas nas panturrilhas. Nos casos graves, é capaz de comprometer os rins e o fígado, causar hemorragias e levar a outras complicações potencialmente fatais.
Outras vias de contaminação e o comportamento das pragas
O risco não está só no prato. Fezes, urina e saliva de roedores também podem contaminar superfícies e o ambiente. Algumas infecções, como as hantaviroses, são transmitidas principalmente pela inalação de partículas contaminadas presentes nas fezes de roedores silvestres infectados. Nas Américas, certos hantavírus podem provocar a síndrome cardiopulmonar por hantavírus, uma doença grave que compromete o coração e os pulmões e pode evoluir rapidamente. E tem mais: nem toda doença associada a ratos depende do contato direto com esses animais. A peste, por exemplo, é causada pela bactéria Yersinia pestis e pode ser transmitida pela picada de pulgas infectadas que parasitam roedores. Ou seja, o rato pode nem dar as caras para que o risco exista.
Ratos e camundongos são mestres em encontrar esconderijos, passar por frestas e, assim, acessar locais onde há comida sem que ninguém os flagre. E eles não precisam aparecer em cima do balcão para representar um risco: podem deixar urina e fezes em superfícies, embalagens, equipamentos e áreas de armazenamento. Aliás, há estimativas de que, em 24 horas, um rato possa produzir três mil microgotículas de urina. Durante essas mesmas 24 horas, ele pode deixar para trás mais de 125 bolinhas de fezes. Para piorar, em ambientes de produção de alimentos, a contaminação pode acontecer sem que ninguém perceba. Um produto pode parecer, cheirar e ter gosto normais e, ainda assim, conter microrganismos nocivos. Quer dizer, o nariz e o paladar não são fiscais sanitários confiáveis.
Por isso, é importante armazenar os alimentos adequadamente, manter lixeiras fechadas, eliminar fontes de água e comida acessíveis, vedar frestas e adotar medidas profissionais de monitoramento e controle de pragas. A higiene também precisa alcançar áreas menos visíveis, como depósitos, cantos e espaços atrás de equipamentos.
O que fazer em caso de ingestão suspeita
Se você ingeriu um alimento que pode ter entrado em contato com fezes ou urina desses animais, não tente provocar vômito nem tome antibióticos por conta própria. Interrompa o consumo e procure orientação de um serviço de saúde, especialmente se houver sintomas ou se a exposição tiver sido significativa. Fique atento a sinais como diarreia, febre, dor abdominal, vômitos e dores musculares. Além disso, procure atendimento com urgência se surgirem sintomas como sangue nas fezes, dificuldade para respirar ou sinais de desidratação.
Crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas imunocomprometidas merecem atenção especial. Também é importante informar ao profissional de saúde o que foi ingerido e quando ocorreu a exposição. Se houver suspeita de contaminação em um estabelecimento comercial, o caso pode ser comunicado à vigilância sanitária local.










