Pesquisas recentes indicam que pensamentos sobre a própria morte e sintomas de ansiedade afetam uma parcela significativa de adolescentes e adultos em diferentes países, evidenciando que o sofrimento psíquico é mais comum do que se imagina.

Fatores sistêmicos e sociais

Questões como a depressão e a ansiedade não dependem apenas da individualidade. Segundo a docente Kelly Giacchero Vedana, da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (EERP-USP) e responsável pelo Centro de Educação em Prevenção e Posvenção do suicídio (CEPS), é preciso olhar para além do indivíduo. “A gente tem que olhar para fatores sistêmicos que estão ligados ao sofrimento, como os determinantes sociais da saúde, os contextos de oportunidade, de acesso a condições que dão um nível de qualidade e dignidade para as pessoas”, diz a especialista.

A importância da prevenção diária

O suporte não deve começar apenas nos momentos críticos. De acordo com a psicóloga Raquel Antoniassi, presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS), “quando falamos de depressão, ansiedade ou outros transtornos, o cuidado começa muito antes da crise, no rompimento do estigma em torno dos transtornos mentais, os quais são condições clínicas reais, com critérios diagnósticos e tratamentos baseados em evidências”. Manter vínculos e abrir espaço para diálogos cotidianos fortalece a rede de proteção.

Identificando sinais de alerta

Embora prever uma tentativa seja complexo, comportamentos como isolamento, alterações no sono ou no apetite, apatia e consumo excessivo de álcool exigem atenção. Além disso, frases que demonstram desesperança merecem escuta atenta. Contudo, as especialistas alertam que nem sempre os sinais estarão visíveis, pois muitas pessoas escondem a dor por vergonha ou culpa.

Como conduzir a conversa

Na hora de apoiar, é fundamental evitar soluções rápidas ou a chamada positividade tóxica. O acolhimento exige presença e validação, e não conselhos vazios. Antoniassi aponta que “o que dizer é, antes de tudo, uma questão de presença e validação. Frases como ‘estou aqui com você’, ‘eu me importo com você e estou preocupado’, ‘eu vejo que você está sofrendo muito, e isso é real’, ‘você não está sozinho nisso’ e ‘vamos encontrar ajuda juntos’ transmitem acolhimento sem prometer soluções mágicas”.

Abordagem direta e sem tabus

Perguntar abertamente sobre o tema não aumenta o risco de novos pensamentos autodestrutivos; pelo contrário, o silêncio e o julgamento é que agravam a situação. Vedana sugere iniciar com questões sobre a rotina e o estado emocional, evoluindo para perguntas diretas caso persista a preocupação com a segurança. “Geralmente, a gente começa conversando sobre temas um pouquinho anteriores, para permitir, inclusive, que esse assunto venha de uma forma mais confortável. Então, eu pergunto como está a pessoa, como está a rotina dela, como ela tem se sentido, quais são os planos dela para o futuro, por exemplo”, explica.

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O que não fazer em uma crise

As principais armadilhas envolvem minimizar, moralizar ou ordenar reações. Desconsiderar a dor alheia ou exigir mudanças de atitude gera culpa e afasta quem precisa de apoio. Ademais, promessas de segredo devem ser evitadas caso exista risco real à vida, priorizando sempre a segurança por meio de uma comunicação transparente.

Primeiros socorros em saúde mental

Em momentos agudos, o método RAPID, desenvolvido pela Johns Hopkins University e aplicado pelo grupo de Vedana, estrutura o acolhimento em cinco etapas: Rapport (relação de confiança), Avaliação (compreensão do risco), Prioridades (respeito aos limites), Intervenção (busca por alternativas) e Disposição de recursos (informação sobre suportes disponíveis).

Onde buscar apoio profissional

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia. A rede pública conta com as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), enquanto situações de emergência extrema podem ser direcionadas às UPAs, pronto-socorros ou ao SAMU (192). Cuidar de quem oferece suporte também é essencial para manter a rede sustentável.