A INVERSÃO DE PRIORIDADES E OS MILHÕES DOS SHOWS PÚBLICOS
Por Mesael Caetano – Advogado
Enquanto faltam médicos nos postos de saúde, medicamentos nas farmácias públicas e estrutura mínima nas escolas, diversas prefeituras do interior brasileiro seguem investindo cifras milionárias em shows e eventos festivos. A cena se repete: cidades com orçamento limitado, população carente de serviços essenciais, mas palcos grandiosos, artistas renomados e cachês que impressionam — e revoltam.
Os artistas que mais receberam recursos municipais no período analisado, em valores arredondados, foram Fernando e Sorocaba (R$ 18,1 milhões), Guilherme e Benuto (R$ 13 milhões), Ana Castela (R$ 12,6 milhões), Maiara e Maraisa (R$ 11,2 milhões), Luan Pereira (R$ 11,1 milhões), Leonardo (R$ 10,6 milhões), Clayton e Romário (R$ 10,4 milhões), Rio Negro e Solimões (R$ 9,8 milhões), Léo e Raphael (R$ 9,8 milhões), Mato Grosso e Mathias (R$ 9,3 milhões), Antony e Gabriel (R$ 9,1 milhões), Bruno e Barreto, Bruno e Marrone. e João Bosco e Vinícius (todos com aproximadamente R$ 9 milhões).
O valor médio de cada contratação no período foi de R$ 112,3 mil. O ano com maior registro total de gastos em shows foi 2025 (R$ 403,5 milhões), seguido de 2024 (R$ 292,2 milhões). O menor ocorreu em 2021, ano ainda fortemente marcado pela pandemia da Covid, quando foram empenhados R$ 25,1 milhões. Em 2026, até agora, o gasto soma R$ 144,7 milhões. Transferências via emendas parlamentares para bancar shows somaram quase R$ 4,3 milhões no período (0,35% do total). (TCE/PR publicação em portal ).
A pergunta é inevitável: qual é, de fato, a prioridade da gestão pública?
Os números ajudam a revelar a dimensão do problema. Apenas no Estado do Paraná, os gastos com shows financiados por prefeituras ultrapassaram R$ 1,2 bilhão entre 2021 e 2026. Em âmbito nacional, estima-se que mais de R$ 5 bilhões tenham sido destinados a eventos e apresentações artísticas em um curto período.
E não se trata de exceção.
Há registros concretos de:
Cachês entre R$ 300 mil e R$ 500 mil em municípios de pequeno porte
Contratações superiores a R$ 800 mil
Shows que atingem ou ultrapassam R$ 1 milhão por única apresentação
Tudo isso para poucas horas de entretenimento.
Enquanto isso, a realidade da população é outra. Com R$ 1 milhão, um município poderia custear milhares de consultas médicas, abastecer unidades de saúde com medicamentos por meses, reformar escolas ou investir em saneamento básico. Mas a escolha, muitas vezes, é outra: o espetáculo em detrimento do essencial.
A Constituição Federal, em seu artigo 37, estabelece os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. E é justamente nesse ponto que a crítica se torna inevitável. Ainda que muitos desses contratos sejam formalmente legais — frequentemente realizados por inexigibilidade de licitação — a legalidade não pode servir de escudo para a imoralidade administrativa.
O problema não é a cultura. Não é o evento. Não é o artista.
O problema é a inversão de prioridades.
Eventos festivos podem, sim, ter valor social e econômico. Podem movimentar o comércio local, gerar empregos temporários e fortalecer tradições culturais. Contudo, quando um município enfrenta filas na saúde, transporte precário e ausência de infraestrutura básica, a escolha por investir centenas de milhares ou milhões em shows revela algo mais profundo: gestão baseada em aparência, não em responsabilidade.








