O impacto das mudanças climáticas sobre a saúde humana tem crescido em um ritmo mais acelerado do que as medidas globais de combate ao aquecimento global, segundo um novo relatório divulgado pelo projeto Lancet Countdown. A pesquisa aponta que, entre 2016 e 2023, o calor esteve associado a uma média anual de 540,8 mil mortes em todo o planeta, sendo que cerca de 68% desses óbitos podem ser diretamente atribuídos às alterações no clima.

Impacto das altas temperaturas na saúde O documento destaca que, em 2023, considerado o ano mais quente da história recente, o mundo registrou um recorde estimado de 710 mil mortes relacionadas às altas temperaturas, superando marcas de doenças como malária e HIV.

“O calor extremo deixou de ser um evento excepcional e passou a constituir uma exposição crescente e recorrente”, considera Isadora Vianna Fernandes, médica de família e coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Planetária da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).

A especialista explica que a exposição prolongada aos dias escaldantes eleva significativamente os riscos de problemas cardiovasculares, respiratórios, renais, além de descontrole na glicose e transtornos psiquiátricos.

“O organismo humano precisa manter sua temperatura interna dentro de limites fisiológicos, uma condição essencial para o funcionamento adequado e saudável do corpo”, diz a médica.

Secas, enchentes e proliferação de doenças Além das temperaturas recordes, o planeta enfrenta uma gangorra climática marcada por secas severas e chuvas extremas. Em 2025, mais da metade das terras globais foram afetadas pela escassez de água por pelo menos um mês. Por outro lado, tempestades intensas elevaram o risco de enchentes e desastres em várias regiões.

Esse cenário afeta diretamente o saneamento básico e a segurança alimentar, além de ampliar a proliferação de vetores de doenças. O clima tornou-se mais favorável para a expansão de mosquitos transmissores da dengue, zika e chikungunya, enquanto milhões de pessoas passaram a viver em áreas vulneráveis à bactéria da cólera.

“É preciso entender que esses eventos não acontecem de forma isolada: eles afetam o acesso à água, aos alimentos, ao saneamento, à moradia, aos serviços de saúde e às condições de vida das populações”, alerta Fernandes.

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Avanços nas energias limpas e poluição do ar Apesar do cenário desafiador, o relatório aponta aspectos positivos, impulsionados pelo investimento histórico em fontes limpas de energia, que alcançaram US$ 2,1 trilhões em 2025. A redução da poluição atmosférica decorrente dessa transição energética evitou cerca de 323 mil mortes anuais em dezenas de países desde a assinatura do Acordo de Paris.

Contudo, a dependência global de combustíveis fósseis ainda supera os 80%, gerando milhões de mortes evitáveis todos os anos e aprofundando desigualdades regionais na distribuição dos impactos ambientais.

Caminhos para o futuro Para frear a crise, o documento reforça a necessidade de tratar o colapso climático como uma emergência sanitária global, acelerar a descarbonização de forma equitativa e destinar recursos financeiros para proteger as populações mais vulneráveis.

“[Faremos isso] transformando e adaptando os territórios e comunidades com mais resiliência climática, para reduzir a exposição no futuro e seus impactos”, diz Isadora Vianna Fernandes.

A médica conclui que o fenômeno meteorológico extremo deixou de ser apenas um assunto de previsão do tempo. “É um risco sanitário previsível, um problema de saúde pública e, em grande medida, prevenível“, finaliza.