Após encerrar o primeiro turno da disputa presidencial atrás de Flávio Bolsonaro (PL) — na menor diferença já registrada desde a redemocratização, com uma distância de apenas 1,87 ponto percentual segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) —, a articulação política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) promoveu uma reformulação total em sua rota estratégica.
A nova sala de situação e a força-tarefa no QG
Um dos primeiros passos dados logo após o pleito inicial foi a instalação de uma sala de situação no quartel-general localizado em Brasília, inaugurada em 5 de outubro. O núcleo estratégico passou a ser comandado pelo secretário de Organização do PT, Laércio Ribeiro de Oliveira, contando com a participação de coordenadores como o senador Camilo Santana (PT-CE) e o presidente do PT, Edinho Silva, além de um grupamento técnico dedicado a dissecar dados estatísticos.
Composta inicialmente por seis profissionais no espaço físico e outros dez na central de atendimento remoto integrada por militantes de múltiplos estados, a equipe trabalhou intensamente para mapear o comportamento do eleitorado em cada micro-região brasileira. A partir desse cruzamento de informações, a campanha direcionou mensagens personalizadas, buscando elevar a rejeição ao candidato adversário em zonas específicas, alavancar discursos positivos de esperança e mirar diretamente naqueles cidadãos que haviam optado pela abstenção.
Mudanças na cúpula e reforço nordestino
Além da central de dados, a coordenação nacional passou por alterações estruturais profundas com a incorporação de três expoentes da região Nordeste para oxigenar a disputa:
- O senador Camilo Santana (PT-CE) assumiu o comando da articulação política;
- O senador eleito Rui Costa (PT-BA) passou a gerenciar a agenda oficial;
- O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, assumiu o setor de comunicação.
Foi sob a influência de Fonteles, inclusive, que o presidente Lula reviu posturas e compreendeu a urgência de estabelecer um diálogo sem intermediários por meio das plataformas digitais. O chefe do Executivo intensificou a gravação de conteúdos audiovisuais voltados para estados estratégicos como Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco, adotando uma postura de estadista.
O papel decisivo das redes e o combate à abstenção
Paralelamente às movimentações tradicionais de rua, o engajamento nas redes sociais ganhou tração com a atuação do deputado federal André Janones (Rede-MG). O parlamentar assumiu a liderança do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, alcançando 10,5 milhões de seguidores e orientando militantes sobre o funcionamento dos algoritmos de internet.
Sobre as diferentes fases da disputa, o secretário Laércio Oliveira avaliou o impacto das ferramentas digitais e o esforço inicial da legenda:
“Somado a isso, a gente tinha a organização do Pode Espalhar, que era uma coisa montada em 2022, aprimorada um pouco, mas era orgânico, alcançava mais a militância. Tivemos o Porta-voz do presidente Lula, sob a coordenação do Boulos, para tentar ampliar o simpatizante que não era do PT, mas que era progressista, mas, na prática, esse engajamento só aconteceu no segundo turno com [André] Janones, que extrapolou a bolha”, disse o secretário.
No fim das contas, a estratégia de mobilização e caça aos votos ausentes se pagou na urna. No segundo turno, Lula assegurou a reeleição com 51,79% dos votos válidos, superando os 48,21% de Flávio Bolsonaro.
“Se você olhar o resultado do Brasil inteiro, o que mais surtiu efeito foi a redução da abstenção e o eleitor que voltou para a urna, não tinha ido no primeiro turno, foi para a urna ou que mesmo não tinha votado em 2022. Isso foi o que mais surtiu efeito, mas tem esse eleitor da terceira via, que foi para ele (Lula). São quase 10 milhões de votos, né?”, destacou Laércio.
O fim dos intermediários na política moderna
Para a cúpula petista, a disputa deixa um legado claro sobre as transformações na comunicação política contemporânea. A dependência exclusiva de sindicatos e movimentos sociais organizados perdeu espaço para a necessidade de mensagens diretas e criativas com a população.
“Esse segundo turno mostrou que é preciso ter criatividade, que tem que falar de forma direta com a massa. Não tem mais intermediário. Você fala com o sindicato, o sindicato reproduz essa relação com os seus trabalhadores. Você fala com movimento social organizado, o movimento social organizado reproduz isso. Eu acho que a sociedade está mudando nesse sentido, está perdendo os intermediários”, pontuou Laércio de Oliveira.
“Não significa que isso deixa de ter importância porque voocê organiza a luta, organiza a partir disso, as suas pautas, mas isso é insuficiente hoje para você falar com o povo, falar com a massa”, concluiu.










