Com uma base de quase 250 mil seguidores no Instagram, a psicóloga Flávia Albuquerque consolidou seu canal Despatologiza como um espaço de debate essencial sobre a saúde mental e a tendência atual de rotular traços de personalidade e características humanas que escapam ao conceito convencional de normalidade.
O impacto dos diagnósticos na sociedade
Utilizando seu repertório teórico e uma visão crítica da realidade brasileira, a especialista expande esse debate com o lançamento de seu primeiro livro, também chamado Despatologiza. A obra questiona a lógica que medicaliza esferas cotidianas da vida e examina como a sociedade contemporânea convive com altas taxas de diagnósticos como TDAH e TOD.
Questionada sobre qual condição melhor representa essa era de patologizações, a autora aponta o campo da atenção e do neurodesenvolvimento. “Não porque seja mais real que os demais, mas porque é nele que a nossa época deposita, hoje, suas angústias em torno de produtividade, adequação e desempenho. O rótulo que se destaca em cada tempo é menos um espelho da biologia e mais um retrato das exigências que aquele tempo faz aos seus sujeitos”, afirma.
O alívio e a armadilha do diagnóstico
A respeito do alívio que muitas famílias sentem ao receberem um laudo psiquiátrico, a psicóloga reconhece a validade desse sentimento em um cenário marcado por preconceitos, onde a dor finalmente ganha um nome e deixa de ser tratada como fraqueza moral. No entanto, ela alerta para os riscos desse processo.
“O cuidado verdadeiro, a meu ver, não recusa o alívio, mas se recusa a parar nele: ele devolve à pessoa a pergunta sobre o que, nas condições concretas da sua vida, está produzindo aquele sofrimento”, explica.
Caminhos possíveis para a reforma psiquiátrica
Para superar o dilema entre invisibilizar o sofrimento sem documentos formais ou reduzi-lo a categorias médicas, a autora destaca a importância de fortalecer políticas públicas já existentes no país, como a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Por fim, a obra reforça a urgência de diferenciar a dor real das interpretações médicas impostas culturalmente. “Essa linha de fronteira não existe de forma objetiva. Ela não é dada pela natureza. É traçada, e traçada por alguém, a partir de um parâmetro de normalidade que é histórico, cultural e, muitas vezes, atravessado por classe, raça e gênero”, conclui.










