Entra em um cômodo e esquece o que foi pegar; está no meio de uma reunião e uma palavra-chave some da cabeça; assiste um filme, mas é tão difícil se concentrar… É o que muitas mulheres relatam ao chegar na perimenopausa, o período que antecede o fim da menstruação e costuma durar anos.

Para entender por que sintomas como a névoa mental, esquecimentos e alterações de humor passam a ser tão frequentes nesta fase, a neurocientista Pauline Maki começou a estar o cérebro de mulheres nesta fase.

Ela descobriu que, além do desequilíbrio hormonal, hábitos de sono — que também são prejudicados pelos fogachos — também tem um papel fundamental nessa confusão toda.

“O que descobrimos foi que o sono é um fator determinante para a função cognitiva nessa fase da vida. Durante a menopausa, as mulheres passam a ter um pouco mais de dificuldade para adormecer”, nota a pesquisadora. “Parte disso ocorre devido aos fogachos, embora eles representem apenas cerca de 27% do tempo em que elas ficam acordadas. O restante é uma perturbação geral do sono.”

Professora de psiquiatria, psicologia e ginecologia a Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, Maki esteve no Brasil a convite da Astellas para palestrar no 20º Congresso Mundial de Menopausa.

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À VEJA SAÚDE, ela conta o que descobriu sobre as causas e, principalmente, como proteger o cérebro antes, durante e após a menopausa.

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VEJA SAÚDE: O que acontece exatamente com o cérebro das mulheres durante a perimenopausa que causa névoa mental, esquecimento e alterações de humor?

Pauline Maki: Sabemos que ocorrem mudanças cognitivas durante a perimenopausa. Conforme as mulheres envelhecem nessa fase, observa-se um leve declínio no funcionamento da memória em algumas.

Isso não é algo universal: enquanto umas não apresentam problema nenhum ou nem percebem as alterações, outras enfrentam dificuldades significativas que chegam a interferir no trabalho.

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Os fatores por trás disso dependem se a transição ocorre de forma natural [primária] ou decorrente de tratamentos médicos e cirúrgicos [secundária].

Na menopausa secundária, a principal fonte de estrogênio [os ovários] é retirada, e os níveis desse hormônio caem bruscamente no dia seguinte. O cérebro responde a essa queda com reduções no desempenho da memória.

É interessante ressaltar que, em ensaios clínicos randomizados, a reposição de estrogênio isolada não melhorou o funcionamento da memória em mulheres na pós-menopausa precoce — o que nos surpreendeu!

A partir daí, passamos a investigar quais sintomas da menopausa poderiam estar contribuindo diretamente para os sintomas cognitivos, como a névoa mental.

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O que mais pode estar afetando essas mulheres, além da queda hormonal?

O que descobrimos foi que o sono é um fator determinante para a função cognitiva nessa fase da vida. O que acontece no sono durante a menopausa é que as mulheres passam a ter um pouco mais de dificuldade para adormecer, mas, principalmente, começam a acordar repetidamente ao longo da noite.

Parte disso ocorre devido aos fogachos, embora eles representem apenas cerca de 27% do tempo em que elas ficam acordadas. O restante é uma perturbação geral do sono.

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Ao acompanhar grandes grupos de mulheres durante a perimenopausa, confirmou-se que aquelas que apresentam problemas de memória são justamente as que têm problemas de sono.

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E as ondas de calor? Elas também atrapalham a memória?

Sim, quando medimos os fogachos de forma objetiva por meio de eletrodos na pele, vemos que a cada episódio ocorre um pequeno pico nos hormônios do estresse, como o cortisol.

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Nos nossos estudos, há mulheres que chegam a ter 24 fogachos por dia. E essas mulheres passam, em média, sete anos, convivendo com eles. Então, o cérebro passa muito tempo exposto a esses picos diários de cortisol.

Inclusive, publicamos em 2023 um artigo demonstrando que, quanto mais fogachos a mulher apresenta, mais biomarcadores da doença de Alzheimer conseguimos medir no sangue.

Como transtornos mentais impactam a cognição da mulher nessa fase?

Sintomas depressivos e de ansiedade são muito comuns na menopausa e afetam diretamente a capacidade de concentração e o foco — além de prejudicarem o sono, pois a mulher acorda e começa a ruminar pensamentos. Todos esses sintomas se sobrepõem.

Tratar os fogachos, o sono e o humor é fundamental para proteger o desempenho da memória. E há também uma questão de equidade em saúde, pois mulheres negras e hispânicas sofrem com fogachos por mais tempo [em média, de 9 a 10 anos] e são as que menos recebem tratamento, ficando mais vulneráveis a problemas cerebrais.

Como podemos distinguir o esquecimento que pode aparecer naturalmente nessa fase dos sinais iniciais de demência?

É verdade, as mulheres se preocupam muito com isso, mas a demência é algo completamente diferente! É importante tranquilizá-las: o desenvolvimento de demência nessa faixa etária é algo extremamente raro.

Quem está em risco de desenvolver demência aos 40 ou 50 anos geralmente possui familiares de primeiro grau que desenvolveram a doença nessa mesma idade, por causa de herança genética. Portanto, para a imensa maioria, é altamente improvável.

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Embora a demência envolva problemas de memória, ela também afeta muitas outras funções cognitivas de maneira muito mais grave.

Um estudo recente do nosso grupo avaliou o hipocampo [o centro de memória do cérebro] e mostrou que ele encolhe cerca de 0,4% ao longo de dois anos como um efeito natural do envelhecimento — e não da menopausa. Na doença de Alzheimer, essa redução é até 10 vezes maior.

Não encontramos nenhuma evidência de que a menopausa cause demência ou encolha o cérebro. Na maioria das mulheres, as alterações de memória decorrentes da menopausa não afetam a capacidade de realizar as atividades diárias normais.

Quando o desempenho no trabalho cai, a causa principal geralmente é a privação de sono e as alterações de humor, e não um processo demencial. Ao tratar esses sintomas, os problemas de memória costumam se resolver.

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Que tipo de hábitos podemos adotar para ter uma melhor saúde cerebral ao longo da vida e durante a menopausa?

Eu costumo dizer que o cérebro que você traz para a menopausa determina o cérebro que você leva ao sair dela. Portanto, precisamos construir a saúde cerebral desde os 20, 30 anos.

O melhor hábito para o cérebro é o exercício físico: cerca de 150 minutos por semana já são suficientes para estimular novas conexões na córtex pré-frontal.

Também devemos ter uma alimentação rica em vegetais e manter uma vida social ativa, pois a interação social agradável gera picos saudáveis de dopamina.

É preciso tratar a depressão e a ansiedade, seja com terapia cognitivo-comportamental ou com técnicas de gerenciamento de estresse, como ioga e caminhadas na natureza.

Evitar o consumo excessivo de álcool e substâncias ilícitas é essencial, assim como prevenir lesões na cabeça — o que envolve tanto a prática segura de esportes quanto o combate à violência doméstica.

Por fim, manter a saúde cardiovascular em dia (controlando a pressão arterial e o colesterol) e buscar acesso a uma boa educação são pilares fundamentais para proteger o cérebro.

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* A repórter viajou ao Rio de Janeiro para cobrir o 20º Congresso Mundial de Menopausa a convite da Astellas.

 

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