O intestino humano abriga uma rede com cerca de 500 milhões de neurônios responsáveis por gerenciar movimentos, digestão, absorção de nutrientes e excreção.
Novas diretrizes médicas O avanço da ciência na área ganhou força com a publicação dos Critérios de Roma V, documento internacional que orienta médicos no diagnóstico de queixas como dor abdominal, azia, constipação, diarreia e gases sem a presença de infecções ou tumores.
“Essa é uma característica essencial dos distúrbios da interação intestino-cérebro: a ausência de traumas ou de patógenos como causa clara dos sintomas”, destaca o gastroenterologista Jaime Gil, do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo.
Fim do termo funcional e foco na escuta Uma das principais mudanças da nova diretriz foi a retirada da classificação de “funcional” de grande parte desses problemas, refletindo uma evolução na compreensão da conexão entre o cérebro e o sistema digestivo.
“Isso não quer dizer que as dores são ‘coisa da cabeça da pessoa’ ou um problema emocional e que não precisam de atenção”, ressalta Gil, que também leciona na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “São desordens na forma como os estímulos são percebidos, mas ainda não temos a tecnologia para determinar como isso acontece.”
Com as novas orientações, pacientes sem sinais de alarme não precisam passar por baterias extensas de exames.
“É o que chamamos de diagnóstico positivo, feito com a escuta atenta dos sintomas e do histórico do paciente, além do exame clínico. Tudo realizado na própria consulta, de forma assertiva, e evitando testes desnecessários que não mudarão a conduta de tratamento — o que não quer dizer que exames complementares não poderão ser solicitados quando o caso sugerir maior gravidade”, esclarece Gustavo Drügg Hahn, gastroenterologista do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
O papel da microbiota e os tratamentos O documento também destaca o impacto da microbiota intestinal na movimentação e nas defesas do aparelho digestivo.
“Estudos apontam que alterações na flora intestinal e nas moléculas que ela produz — como os ácidos graxos de cadeia curta, que têm um efeito positivo — influenciam diretamente a movimentação, o funcionamento e as respostas imunológicas do aparelho digestivo”, relata Hahn.
Para o tratamento, a abordagem combina medicamentos com mudanças no estilo de vida.
“Antiespasmódicos, inibidores de bomba de prótons, antieméticos e até alguns antidepressivos, usados como neuromoduladores, estão entre as classes que podem ser indicadas para o tratamento da síndrome do intestino irritável e de outros distúrbios da interação intestino-cérebro”, conta o coloproctologista Lucas Araújo Horcel, membro da Sociedade Brasileira de Coloproctologia e da Sociedade Americana de Cirurgiões Colorretais.
Dietas restritivas, como a exclusão temporária de FODMAPs, também podem ser aplicadas em casos específicos, mas exigem acompanhamento profissional.
“Mas isso é um processo periodizado, com início, meio e fim”, ressalta o nutricionista Caio Victor Coutinho, membro do Conselho Federal de Nutrição (CFN).
O especialista alerta ainda sobre os limites dessas abordagens: “Após identificados, eles ficam restritos ou são consumidos em menor quantidade. Nada de restrições severas para sempre”.










