Muito além dos fogachos e da névoa mental, estima-se que até metade das mulheres na peri e pós-menopausa sofram com sintomas da síndrome geniturinária, como ressecamento vaginal e infecções urinárias de repetição.
O quadro atrapalha desde atividades diárias até a vida sexual da mulher. E melhorar a qualidade de vida daquelas que estão vivendo os dramas da montanha-russa hormonal dessa fase é a missão da ginecologista, endocrinologista e sexóloga italiana Rossella E. Nappi, presidente da Sociedade Internacional de Menopausa (IMS, na sigla em inglês).
“É preciso entender que a sexualidade muda ao longo do tempo — você não joga tênis aos 60 anos da mesma forma que jogava aos 40, mas continua jogando”, compara a médica, também professora da Universidade de Pávia, na Itália.
Autora de mais de 360 artigos científicos, Nappi especializou-se na saúde sexual da mulher madura e é uma das maiores especialistas no tratamento do climatério em todo o mundo. Em entrevista à VEJA SAÚDE, a médica explica o que pode ajudar a melhorar o quadro e como a mulher pode recuperar o prazer nesta fase.
VEJA SAÚDE: Cerca de metade das mulheres na menopausa podem enfrentar os sintomas da síndrome geniturinária. Quais são os sinais aos quais elas devem estar atentas e como podem procurar ajuda?
Rossella Nappi: Há diversos sintomas, mas o mais importante deles é o ressecamento vaginal. E ele não atrapalha apenas a relação sexual, mas também atividades diárias, como a prática de esportes ou mesmo o hábito de ficar sentada por muitas horas seguidas.
Isso ocorre, em primeiro lugar, devido à falta de estrogênio, mas também é resultado do processo natural de envelhecimento, no qual perdemos progressivamente colágeno, ácido hialurônico e elastina.
Como consequência, os tecidos se tornam secos, pálidos e são facilmente traumatizados. Isso também facilita o desenvolvimento de infecções urinárias de repetição. E isso é crítico, especialmente para mulheres mais velhas, pois leva ao uso recorrente de antibióticos.
Algumas mulheres também desenvolvem cistite pós-coito, que é a infecção urinária após o trauma da relação sexual.
Como tratar esses problemas?
Os lubrificantes são a primeira linha de tratamento e podem ser usados durante a relação sexual para reduzir o atrito.
Já os hidratantes vaginais, especialmente os com ácido hialurônico, são muito úteis. Eles nutrem o tecido, possuem ação anti-inflamatória e protegem a região.
Também é possível fazer uso de terapia estrogênica local, por meio da aplicação de cremes, géis, comprimidos ou anéis vaginais.
Se a mulher já faz terapia hormonal sistêmica para aliviar fogachos ou prevenir a osteoporose, ela também está prevenindo a síndrome geniturinária. Apenas cerca de 25% das pacientes que usam TRH [terapia de reposição hormonal] necessitam associar o estrogênio local.
E também existem os procedimentos a laser para rejuvenescimento tecidual. No entanto, mesmo que eles tragam resultados comparáveis aos do ácido hialurônico ou ao estrogênio local, são opções mais caras.
Como também faltam dados de longo prazo e exigem manutenção contínua, deve-se avaliar bem a real necessidade antes de optar por eles.
Mulheres que não podem fazer reposição hormonal, como pacientes que tiveram câncer hormonodependentes ou têm histórico de AVC e trombose, têm opções?
Com certeza. Para mulheres com câncer de mama ou outras condições estrogênio-dependentes, para as quais a reposição hormonal é contraindicada, a abordagem envolve lubrificantes e hidratantes vaginais.
Outro pilar fundamental é a reabilitação do assoalho pélvico. Os exercícios para essa musculatura aumentam o fluxo sanguíneo local, preservam a sensibilidade nervosa e ajudam no relaxamento muscular, o que evita a dor no momento da penetração.
Nessas pacientes, técnicas como radiofrequência, oxigenoterapia, hidroperfusão com ácido hialurônico e laser também são bastante empregadas.
Além disso, a psicoterapia, técnicas de mindfulness e a exploração de fantasias ajudam a encontrar novas formas de viver a relação com confiança e prazer.
Além da falta de estrogênio, o que mais pode influenciar essa condição?
A síndrome geniturinária também se relaciona à insuficiência de androgênios. Embora não tenhamos exames de sangue perfeitos para medi-los com precisão, quando há sintomas de prejuízos à vulva e à uretra, os androgênios podem fazer diferença.
Podemos utilizar cremes manipulados de testosterona a 2%, aplicados localmente cerca de duas vezes por semana. Os androgênios atuam na resposta sexual melhorando a vascularização e a densidade nervosa, o que favorece o prazer.
Quanto à saúde mental, o bem-estar emocional é fundamental para a vida sexual feminina. A falta de ânimo ou a depressão impactam diretamente o desejo sexual e podem até causar dor na relação devido à falta de excitação.
Precisamos avaliar se a origem do sintoma é física ou emocional. Sem o estímulo do desejo e das fantasias, o cérebro não envia as pistas necessárias e o ato sexual se torna difícil.
Como a mulher pode reaprender a sentir prazer após a menopausa?
Primeiro, reconhecendo o problema e conversando abertamente sobre isso com o parceiro ou a parceira. O apoio é crucial.
É preciso entender que a sexualidade muda ao longo do tempo — você não joga tênis aos 60 anos da mesma forma que jogava aos 40, mas continua jogando.
Na maturidade, o sexo exige mais tempo, preliminares e momentos de conexão. Aproveitar um bom jantar ou criar um ambiente romântico ajuda a elevar o nível de intimidade. Não é um processo automático como na juventude.
Problemas sexuais masculinos também podem abalar essa relação?
Devemos lembrar que o problema nem sempre é exclusivo da mulher. Os parceiros também envelhecem e podem apresentar disfunção erétil, queda de libido, condições de saúde como hipertensão, diabetes, problemas de próstata… até o uso de alguns medicamentos podem afetar o desempenho sexual.
Por isso, encaramos a saúde sexual como uma questão do casal.
A medicina do estilo de vida é vital aqui: alimentação saudável, exercícios físicos, redução do álcool e eliminação do tabagismo melhoram o funcionamento do corpo e da mente, além de fortalecer a longevidade e a conexão emocional.
O que deve mudar nas consultas para acolher esses casais?
É essencial que os profissionais de saúde envolvam os parceiros e também acolham a diversidade, incluindo a comunidade LGBTQIA+ e pessoas transgênero.
O direito à vivência da sexualidade permanece, seja através da penetração ou de outras formas de intimidade e satisfação mútua. O repertório é amplo.
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