O mercado internacional de gás natural liquefeito (GNL) enfrenta uma forte pressão de alta devido à aproximação do inverno no hemisfério Norte, agravada por uma crise severa de oferta decorrente do conflito no Oriente Médio.
Impacto da guerra no Oriente Médio As restrições de navegação impostas no estreito de Ormuz e os prejuízos na infraestrutura de gás do Catar — um dos principais exportadores do planeta — provocaram uma retração expressiva no volume de combustível disponível para os importadores.
Conforme apontado pelo especialista Pedro Rodrigues, sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o Catar embarcou 536 cargas a menos em comparação ao mesmo período de 2025. Esse montante representa cerca de 39 milhões de toneladas, equivalendo a quase 9% de toda a oferta global do ano passado.
Disputa por cargas entre Ásia e Europa A Ásia, que absorve mais de 80% das vendas externas catarianas, é a região mais atingida. No mercado spot, voltado para negociações de curto prazo, a cotação do GNL alcançou US$ 25 por milhão de BTU, registrando um salto de 140% em relação ao patamar anterior ao conflito.
Enquanto isso, a Europa lida com reservas de gás natural em patamares reduzidos, situadas em aproximadamente 72% da capacidade total, ante a média histórica de 90% dos últimos quatro anos. Na Alemanha, maior economia da região, o cenário é ainda mais crítico, com os estoques em apenas 57%.
O fator de transmissão de crises Para Rodrigues, o grande perigo reside na alta flexibilidade do GNL, característica que permite o transporte marítimo do combustível para diferentes destinos, transformando compradores europeus e asiáticos em concorrentes diretos pelas mesmas cargas.
“O problema é que a flexibilidade do GNL, que é a sua maior virtude, vira um transmissor de crise”, afirmou.
O especialista ressalta que um inverno mais rigoroso no hemisfério Norte pode elevar significativamente a necessidade de gás para aquecimento, acirrando a disputa entre as nações compradoras e espalhando a escassez de forma global.
Consequências para o setor energético no Brasil Embora o país produza o próprio gás natural, o território brasileiro depende da importação de GNL para suprir a demanda em momentos de baixa incidência de chuvas, quando as usinas termelétricas precisam ser acionadas para garantir a geração de eletricidade.
Nessas ocasiões, o custo de aquisição do insumo fica vulnerável às flutuações do mercado internacional, impulsionadas pela rivalidade entre europeus e asiáticos.
Para contornar essa dependência, o representante do CBIE aponta a necessidade de expandir a produção interna do combustível, investir em redes de transporte eficientes e estimular a competitividade no mercado nacional.
“Segurança energética não se decreta. Se constrói com mais oferta e mais concorrência”, concluiu.










