Diante do avanço do desmatamento, da exploração do solo e dos impactos climáticos, a propagação de enfermidades transmitidas de animais para humanos ganha cada vez mais relevância científica. A prevenção de futuras crises sanitárias globais depende diretamente do conceito de saúde única, abordagem que une o bem-estar humano, veterinário e ecológico. Para compreender a presença desse tema nas plataformas eleitorais, a virologista Helena Lage Ferreira, professora da Universidade de São Paulo (USP) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), analisou anonimamente as diretrizes dos concorrentes ao Palácio do Planalto.

Baixa adesão e falta de detalhamento nos planos de governo

Apesar dos alertas da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a probabilidade de novas pandemias, somente quatro dos doze postulantes à presidência incluíram medidas específicas relativas ao controle integrado de zoonoses e à preservação de habitats em seus documentos oficiais.

A virologista pontua que a realidade brasileira exige atenção imediata à pauta. “O país tem uma grande biodiversidade, extensa produção agropecuária e importantes interfaces entre fauna silvestre, animais domésticos e seres humanos”, destaca. No entanto, ela observa deficiências estruturais nos textos analisados: “As propostas mencionam instrumentos importantes, mas, nos conteúdos apresentados, há pouco detalhamento sobre governança, financiamento e indicadores que permitam acompanhar a implementação das medidas”.

Vigilância agropecuária e recursos tecnológicos

Considerada um setor estratégico para a biossegurança devido ao contato direto com aves, suínos e bovinos, a agropecuária recebeu menções variadas entre os candidatos.

O governador Ronaldo Caiado (PSD) sugere modernizar a defesa agropecuária e a vigilância epidemiológica por meio de inteligência artificial e checagem contínua de patógenos. Na avaliação de Helena, embora ferramentas digitais sejam úteis, elas dependem de bases sólidas: “A tecnologia não substitui a manutenção de equipes de campo, redes laboratoriais e sistemas de notificação bem estruturados.”

Por sua vez, o ex-presidente Lula (PT) propõe rastrear animais de rebanho desde o nascimento até a fase de abate, tendo como foco principal as exigências comerciais externas. A especialista ressalta que essa rastreabilidade também deveria ser enfatizada como escudo sanitário, facilitando o bloqueio rápido de surtos.

Já o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta a centralização em uma única base de dados de dados ambientais, uso da terra, produção e transporte de carga viva. Contudo, Helena pondera sobre as lacunas da medida: “Entretanto, o trecho não especifica como as informações sanitárias seriam incorporadas, quais instituições teriam acesso aos dados nem de que forma essas informações seriam utilizadas para vigilância e resposta a zoonoses e doenças animais”.

Iniciativas amplas e proteção de animais domésticos

Entre todos os concorrentes, Wilson Grassi (Democratas), que atua profissionalmente como médico veterinário, é quem confere maior centralidade ao tema, destinando uma seção completa de sua plataforma à saúde integrativa. Em sua visão, “saúde humana, animal e ambiental são o mesmo problema visto de ângulos diferentes”.

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Grassi defende a estruturação de uma rede laboratorial de diagnóstico animal, inclusão de veterinários no SUS, planos para emergências biológicas e um programa perene contra zoonoses. A virologista enfatiza que a estratégia deve otimizar o aparato público atual: “Uma estratégia de saúde única poderia partir das estruturas já existentes e estabelecer mecanismos permanentes de interoperabilidade, compartilhamento de dados e atuação conjunta”.

Atenção básica para cães e gatos

O acolhimento de pets também aparece nos projetos de Grassi e Lula. Grassi propõe consultas públicas para a população vulnerável e a obrigatoriedade do SinPatinhas para coibir o abandono, enquanto Lula defende manter o sistema cadastral e expandir mutirões de castração.

Helena ressalva que consultas públicas exigem balizas claras: “Uma política mais ampla precisaria definir quais procedimentos seriam oferecidos, como ocorreria o diagnóstico e tratamento de doenças complexas, o acesso a medicamentos e como essa assistência veterinária se articularia com objetivos específicos de saúde pública e vigilância de zoonoses”.

Sobre a obrigatoriedade do registro de animais, a pesquisadora alerta para a complexidade social: “Entretanto, mecanismos de responsabilização precisam ser acompanhados de políticas de educação para guarda responsável, acesso à castração e assistência veterinária. Parte do abandono ocorre em contextos de vulnerabilidade socioeconômica, de modo que medidas exclusivamente punitivas podem não resolver todas as causas do problema”.

A ausência de menções à saúde animal e à integração ecológica na grande maioria dos programas governamentais revela o desafio de consolidar uma vigilância sanitária moderna e preventiva no debate político nacional.