O Nordeste brasileiro funciona como o principal reduto político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas a região não pode ser rotulada como majoritariamente petista. A avaliação foi feita pelo cientista político Adriano Oliveira em entrevista veiculada no último sábado (26.set.2026).
A força de um fenômeno individual
O professor da Universidade Federal de Pernambuco explicou que a conexão de boa parte dos eleitores nordestinos ocorre diretamente com a figura de Lula, e não com a legenda partidária. Essa relação foi consolidada ao longo de sucessivos pleitos devido à percepção de avanço social e econômico.
“O lulismo é um fenômeno individual. É um fenômeno que é maior do que o petismo”, disse.
Investigações qualitativas conduzidas pelo especialista ao longo dos anos demonstram que os moradores locais associam o chefe do Executivo à melhoria na qualidade de vida e à presença do Estado em suas comunidades. Uma fala comum captada nos levantamentos resume esse sentimento: “Lula fez o Estado bater na porta dos nordestinos”. Em contrapartida, esse cenário positivo convive com o estigma da corrupção, apontado negativamente em relação a Lula e ao PT.
Lulismo versus petismo nos estados
Para o pesquisador, o equívoco está em imaginar que todo o eleitorado da região apoia a sigla, visto que legendas de centro e de direita mantêm forte atuação nas disputas municipais e estaduais.
“O PT é competitivo por conta do lulismo e o lulismo é maior do que o PT”, afirmou.
Como exceção regional, a Bahia sobressai ao unir a popularidade do presidente com uma estrutura partidária consolidada por sucessivos governos estaduais do partido, onde Lula alcançou 72,12% dos votos válidos no segundo turno de 2022.
Mudanças nas preocupações do eleitor
As demandas da população nordestina passaram por transformações desde 2010. Inicialmente, a saúde liderava as queixas nas pesquisas qualitativas, abrindo espaço posteriormente para a economia e as condições de vida. A partir de 2018, os desdobramentos da operação Lava Jato inseriram a corrupção de forma definitiva no discurso dos eleitores.
Para o pleito de 2026, Oliveira aponta um mosaico de apreensões que envolve segurança pública — com forte impacto no Ceará —, corrupção, alta de tributos, custo de vida e exaustão com o antagonismo entre lulistas e bolsonaristas.
Cenário para a disputa presidencial
O cientista político divide o eleitorado atual em três blocos: defensores de Lula, adeptos do bolsonarismo e o grupo que repudia ambos os lados. Muitas vezes, a escolha do candidato é guiada pela rejeição ao oponente.
“Eu não gosto nem de Lula e nem de Bolsonaro, mas eu não gosto mesmo é de Lula. Então eu voto no Bolsonaro”, exemplificou.
Ambos os nomes cotados para a corrida enfrentam barreiras de rejeição. No caso do atual mandatário, pesam a inflação, a insegurança e temas de corrupção. Já em relação a Flávio Bolsonaro, a vinculação com Jair Bolsonaro figura como aspecto desfavorável nas análises qualitativas. “O eleitor já tomou a decisão”, concluiu Oliveira, desenhando um panorama de acirrada polarização.










