A prática de disputar o Senado por um estado diferente daquele onde o político construiu sua carreira ganhou forte evidência nas eleições de 2026, com figuras nacionalmente conhecidas concorrendo longe de seus redutos tradicionais. Entre os casos de migração está o de Hélio Lopes, que deixou o Rio de Janeiro para concorrer por Roraima, além de movimentações envolvendo nomes como Carlos Bolsonaro em Santa Catarina, Marina Silva e Simone Tebet em São Paulo.
O xadrez da fidelidade e o poder do Senado
Embora permitida pela legislação, que exige apenas a comprovação de domicílio eleitoral por seis meses antes do pleito, a estratégia reacende debates sobre a representatividade dos estados e os projetos nacionais das legendas. Com o aumento do peso político do Senado — responsável por aprovar indicações ao STF e julgar impeachments —, as cúpulas partidárias buscam nomes de estrita confiança para evitar traições em votações cruciais.
“A manobra virou uma ferramenta do xadrez político em Brasília. Enquanto a legislação estiver desse jeito, essa é a forma que os partidos utilizaram para tentar ter mais ingerência [interferência] sobre a atuação dos senadores”, diz a cientista política Graziella Testa, Doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
“A estratégia é pegar alguém em quem se tem uma confiança absoluta, ainda que não seja daquele estado”, explicou Testa, doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).
Impacto local e racha no PL em Roraima
No caso de Hélio Lopes, a transferência gerou surpresa e atritos com o diretório estadual do PL em Roraima, que inicialmente planejava lançar apenas o deputado federal Nicoletti. O presidente da legenda no estado, Arthur Henrique, admitiu que a decisão foi tomada em Brasília a pedido de Jair Bolsonaro e que a cúpula local soube da novidade pela imprensa.
“Descobrimos isso no momento em que a imprensa divulgou que o domicílio eleitoral estava aqui em Roraima”, afirmou Arthur Henrique.
A chegada do aliado de Bolsonaro também alterou a divisão do Fundo Eleitoral. O montante foi distribuído de forma desigual após definições lideradas por Nicoletti: enquanto a campanha adversária ficou com R$ 3,1 milhões, a de Hélio Lopes recebeu R$ 500 mil. Sobre a gestão dos recursos, Arthur Henrique detalhou o processo interno da legenda.
“Como o Nicoletti é deputado federal, o Valdemar [Costa Neto, presidente nacional do partido] entregou para ele essa prerrogativa, mas foi aprovada no sistema por mim, com o apoio de toda a diretoria”, explicou.
Desafios nas urnas e a avaliação dos eleitores
Pesquisas recentes colocam Hélio Lopes na 7ª posição na disputa pelas duas vagas ao Senado por Roraima. Para justificar a ligação com o estado, o candidato aponta passagens militares e envio de emendas parlamentares anteriores à mudança de domicílio, além de atuar ativamente na associação de sua imagem a Jair e Flávio Bolsonaro. No entanto, a Justiça Eleitoral proibiu o uso do sobrenome “Bolsonaro” na urna.
Especialistas alertam que a nacionalização da eleição e a importação de candidatos podem distanciar a disputa das reais necessidades da população local.
“A busca [em casos como o de Hélio] vai no sentido de surfar na onda de um ‘cacique nacional’. É bom [para o candidato] do ponto de vista eleitoral, mas não pode virar apenas um instrumento para se alcançar poder”, avalia Carlos Santiago, presidente da Comissão de Reforma Política e Combate à Corrupção Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Amazonas.
O pleito definirá se o eleitor roraimense interpretará a movimentação como uma alternativa legítima ou como mero oportunismo político diante das demandas regionais.










