A formação de uma bancada recorde do PL no Senado a partir de 2027 exigirá um esforço intenso de articulação política por parte do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos parlamentares dos partidos de esquerda. Com a projeção de ocupar sozinha mais de um terço da Casa, a legenda de Jair Bolsonaro representará um cenário inédito para a base governista.

Cenário político e distribuição de forças no Congresso Caso os números atuais se mantenham, o PL contará com 28 dos 81 senadores, após eleger 19 parlamentares no último domingo (4). Trata-se da maior bancada partidária no início de uma legislatura desde a promulgação da Constituição de 1988, superando o recorde anterior do antigo MDB em 1999. Em contrapartida, PT, PSB, Rede e PDT deverão somar apenas 15 cadeiras. Outros 37 assentos estarão distribuídos entre diversas siglas, além de um parlamentar sem partido.

Estratégias da base para evitar retrocessos legislativos Diante desse panorama, senadores estreantes e reeleitos de diferentes legendas progressistas já desenham planos de atuação. Para parlamentares como Marília Arraes (PDT-PE), Samanda de Lula (PT-RN) e Marília Campos (PT-MG), a saída passa pela construção de pontes em pautas específicas, pelo diálogo constante com o campo opositor e pela forte mobilização popular para barrar retrocessos nos direitos sociais.

Por outro lado, nomes experientes como Cid Gomes (PSB-CE) e Humberto Costa (PT-PE) alertam para o risco de avanço na agenda de costumes promovida pela direita, a exemplo de propostas que buscam restringir o direito ao aborto. Vale destacar que o procedimento é legalizado no Brasil em três situações específicas: gravidez resultante de estupro, risco de morte para a gestante e casos de fetos anencéfalos.

Visão dos parlamentares sobre o novo perfil da oposição O senador Humberto Costa avalia que os novos integrantes da oposição possuem uma postura mais incisiva.

“Há diálogo com algumas pessoas, mas a grande maioria segue uma orientação única. Fazem questão de apresentar emendas. Uma bancada muito ativa em apresentar propostas que são maléficas para a população brasileira e fazem um tipo de oposição que é uma oposição sem muito diálogo”, afirmou Humberto Costa.

Apesar da dificuldade, o parlamentar pernambucano acredita que o governo conseguirá aprovar matérias já consolidadas, citando o fim da escala 6×1. Na corrida pela presidência do Senado em fevereiro de 2027, Costa defende entendimento com o centrão e apoia a recondução de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), desde que não haja concessões em pautas cruciais, como a anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Combinação de atuação parlamentar e mobilização social A necessidade de firmeza e articulação também é enfatizada por Samanda de Lula, que descarta recuos em pautas trabalhistas e de proteção aos vulneráveis.

“Para evitar retrocessos, será preciso combinar atuação parlamentar, articulação política e mobilização da sociedade”, disse Samanda.

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No mesmo sentido, Marília Arraes aposta na escuta ativa e na aproximação com setores que não acompanham a esquerda.

“Precisamos conversar com quem pensa diferente, ouvir as insatisfações e mostrar como nossas propostas respondem aos problemas reais de segurança, emprego, renda, saúde e oportunidades”, disse Marília.

Minimizando o impacto numérico da oposição, Cid Gomes calcula que o grupo rival terá força para convocar uma CPI, mas carece de maioria absoluta. O socialista também enxerga divisões internas na direita que favorecem a reeleição de Alcolumbre.

“O que eu tô vendo é que eles lá não se entendem. Rogério Marinho (PL-RN) quer ser candidato, Tereza Cristina (PP-MS). Muito mais fácil o Davi conseguir uma maioria pelos partidos”, afirmou.

Por fim, Marília Campos pretende aplicar sua bagagem administrativa para costurar acordos republicanos focados nas demandas municipais, resumindo sua visão sobre o trabalho legislativo.

“Retrocesso se evita de dois jeitos. Um é firmeza em direito do trabalhador, das mulheres, na proteção social e na democracia. Não tem negociação. O outro é ter voto, e voto se constrói com relação. Quem conversa com os colegas o ano inteiro tem mais condição de virar uma votação na hora decisiva”, afirmou Marília Campos.