O Brasil ocupa uma posição geopolítica de destaque no cenário global por abrigar a segunda maior reserva de terras raras do planeta, além de extensas jazidas de minerais essenciais. Esses insumos são fundamentais para a fabricação de baterias, semicondutores, painéis solares, inteligência artificial e fertilizantes agrícolas. Enquanto as terras raras formam um grupo fixo de 17 elementos químicos indispensáveis para motores elétricos e equipamentos de defesa, os minerais críticos englobam insumos com alto risco de desabastecimento global, como lítio, níquel, cobre e potássio. Em suma: todas as terras raras são minerais críticos, mas nem todos os minerais críticos são terras raras.

O debate central da corrida presidencial O cerne da discussão política gira em torno da capacidade do país de processar, refinar e industrializar esses recursos internamente. Historicamente restrito à exportação de matéria-prima bruta, o território nacional tem a chance de integrar as etapas mais complexas da cadeia de valor.

Os planos de governo apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelos dois candidatos que disputam o segundo turno foram avaliados por especialistas renomados. A análise foi realizada pelo geólogo Álvaro Penteado Crósta — professor emérito da Unicamp e membro da Academia Brasileira de Ciências — e pelo neurocientista e futurista Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp e colunista do portal.

Segundo Machado Dias, a base legal já está estabelecida após a sanção da Política Nacional de Minerais Críticos. O especialista pontua que a divergência real entre as candidaturas está no nível de exigência para o beneficiamento do minério em solo brasileiro. “A lei está dada e os dois candidatos dizem a mesma coisa, que o Brasil não vai continuar sendo só exportador de matéria-prima. A disputa real não é sobre lei novamente, mas sobre qual é o grau de exigência nesse processamento”.

A proposta de Luiz Inácio Lula da Silva O plano do candidato do PT aposta na consolidação da Política Nacional de Minerais Críticos para estruturar a cadeia produtiva sob a coordenação do Estado. A diretriz principal veta a exportação de minério bruto e condiciona financiamentos públicos do BNDES à transferência de tecnologia e à produção local de componentes, integrando o setor à neoindustrialização verde.

“A proposta de Lula atribui ao governo papel central na organização e coordenação da política industrial e da definição de prioridades para as cadeias produtivas completas desses minerais; define mecanismos e incentivos com financiamento público via BNDES, forte indução de pesquisa e desenvolvimento no país por meio de empresas públicas, pesquisa geológica estatal e forte participação de universidades e institutos de pesquisa brasileiros”, explica Crósta.

O geólogo acrescenta que a pauta está alinhada à Nova Indústria Brasil (NIB), priorizando parcerias com o Sul Global e os BRICS. Machado Dias reforça que o projeto busca o refino pleno e a separação química das terras raras no território nacional. “A visão do governo do PT é de uma régua mais alta, apontando para a separação química das terras raras no Brasil. Do ponto de vista dos pontos de contato com o mercado, existe uma busca de parcerias com a Índia, a China e os Estados Unidos”. Ele conclui afirmando que “o problema das terras raras não é nem geológico, nem de dinheiro, mas químico. O Brasil tem total capacidade de desenvolvimento técnico para esse tipo de coisa, pois essa classe média da ciência brasileira é de excelente qualidade”.

A proposta de Flávio Bolsonaro Por outro lado, o programa do candidato do PL prioriza a desburocratização, a agilidade no licenciamento e a atração de capital privado, posicionando o Estado estritamente como regulador e não como produtor. A estratégia conecta as reservas minerais à oferta de energia limpa para abastecer indústrias tecnológicas e data centers.

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Embora o plano cite uma inserção internacional pragmática, Crósta aponta inclinações geopolíticas. “Na verdade, há restrições e preferências ideológicas no plano do Flávio em favor dos EUA, ainda que implícitas no texto”. O especialista argumenta que a proposta busca atender aos interesses de empresas norte-americanas e alinhar o Brasil aos Estados Unidos e a Israel para suprir a demanda daquelas nações e reduzir a dependência global em relação à China.

“Neste caso, parece haver uma forte influência dos interesses das chamadas ‘big techs’, em sua maioria baseadas nos Estados Unidos, sugerindo forte interação com o governo daquele país, ou mesmo subordinação a ele”, reforça o especialista. “Flávio defende o alinhamento com Estados Unidos e Israel na questão dessas commodities minerais, indicando que las reservas brasileiras desses minerais, principalmente no caso das terras raras, das quais o Brasil possui o segundo maior potencial mundial, seriam a solução para quebrar a dependência daqueles países em relação à China, país que possui as maiores reservas e que domina todo o ciclo de aproveitamento desses minerais”.

Machado Dias concorda com essa leitura e aponta que a oposição busca uma via mais rápida para fechar acordos internacionais. “O programa do PL fala mais em licenciamento ágil e capital estrangeiro sem ressalva, com a régua não precisando ser tão alta. O caminho do Flávio é o de colocar o Brasil dentro do bloco americano como a mina confiável”, observa. O neurocientista também faz um alerta sobre os riscos de um alinhamento restrito: “A China tem uma capacidade de alimentação energética de suas fábricas que é incomparável, pois foi a grande fábrica do mundo nas últimas décadas. Essa troca pode, em poucos anos, ter um custo muito grande para o Brasil”.

Caminhos distintos para a economia nacional Em síntese, Crósta resume que o contraste entre os modelos reside na distribuição dos lucros e nos custos da exploração mineral. “Se na proposta de Lula parte dos eventuais benefícios, impostos e lucros na exploração desses importantes recursos minerais se reverteriam para o Estado, e, portanto, para o país, na de Flávio Bolsonaro o Estado desembolsaria recursos em atividades de fomento e arrecadaria impostos, ficando a maior parte do lucro e benefícios com a iniciativa privada, principalmente a de natureza multinacional”.

A definição sobre o futuro da exploração de terras raras e minerais críticos no Brasil caberá aos eleitores neste domingo (25), durante o segundo turno das Eleições 2026.