Manuscritos e registros financeiros apreendidos pela Polícia Federal durante a Operação Unha e Carne evidenciam repasses direcionados ao deputado eleito Márcio Canella (União Brasil). O político, que já exerceu os mandatos de deputado estadual e prefeito de Belford Roxo, foi preso durante a oitava fase da ofensiva policial, sendo apontado pelas autoridades como o patrono político e principal articulador de alto escalão de um grupo especializado em lavagem de dinheiro através de postos de combustíveis na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Investigação financeira e movimentações milionárias A organização criminosa é suspeita de movimentar mais de R$ 7,6 bilhões em um período de seis anos. Segundo os investigadores, Canella funcionava como a ponte entre o núcleo econômico que explorava os postos, agentes públicos e estruturas políticas, viabilizando indicações e fazendo a intermediação de verbas de emendas para Belford Roxo.

As anotações obtidas nas residências de investigados mostram que os repasses financeiros não foram casos isolados, mas parte de uma prática contínua de divisão de lucros ilícitos originados de estabelecimentos como o Posto Jardim Ubá e o Auto Posto LP Francis. Documentos com marcações em vermelho indicam valores repassados ao político e menções a outros operadores do esquema.

Contratos públicos e outras transações suspeitas Além dos postos, a investigação aponta que a empresa Brumar, na qual Canella figura como sócio igualitário com Bruno Viana de Souza, transferiu R$ 1,4 milhão para o político entre maio de 2025 e abril de 2026 sem comprovação de origem lícita. Relatórios também destacam que, durante sua gestão municipal, companhias ligadas a um operador financeiro da organização firmaram contratos milionários com a prefeitura.

Operação e desdobramentos judiciais A oitava fase da Operação Unha e Carne integrou a Força-Tarefa Missão Redentor II, resultando em seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão em diversas cidades fluminenses. A Justiça determinou o bloqueio de bens, o sequestro de valores e a suspensão das atividades de 112 empresas, sendo 96 postos de combustíveis usados para ocultar os recursos ilícitos.

Entre os alvos recentes estão o ex-secretário de Polícia Civil Marcus Vinicius Amim Fernandes, Pablo Jukia Felix Ferreira, José Carlos Alves de Souza Júnior, Christiano Gaspar Fernandes e Giovanni Gaspar Fernandes. Os suspeitos responderão por crimes como organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção, violação de sigilo funcional, cartel e venda ilegal de combustíveis.

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Histórico e posicionamento da defesa Em julho, Canella havia sido preso em flagrante após a localização de um fuzil calibre .556 em seu veículo durante diligências anteriores da mesma operação. Na ocasião, o político alegou que o armamento pertencia ao policial militar encarregado de sua segurança, sendo solto três dias depois por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) com o cumprimento de medidas cautelares. Nas eleições recentes, ele conquistou uma vaga na Assembleia Legislativa como o segundo deputado estadual mais votado do estado.

Em nota oficial, a Corregedoria-Geral de Polícia Civil informou que apoia a operação e declarou: “A Polícia Civil não compactua com qualquer desvio de conduta e adota, de forma rigorosa, as medidas administrativas e disciplinares cabíveis diante de indícios de irregularidades. A instituição mantém atuação integrada com outras forças de segurança e órgãos de controle, respeitando as atribuições de cada instituição, para garantir a apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos, quando cabível.”

A defesa do delegado Marcus Amim informou que “O Advogado Thiago Minagé aguarda acesso ao Dr. Marcus Amim e à decisão para prestar prestar os devidos esclarecimentos”. Por sua vez, os advogados de Giovanni Gaspar Fernandes e Christiano Gaspar Fernandes comunicaram que não tiveram acesso aos autos e que os clientes foram surpreendidos pelas prisões.