A eleição para a Câmara dos Deputados terminou em frustração para o PSOL, que sofreu com o impacto da alta concentração de votos em seus principais candidatos. Apesar de contar com expressivas votações individuais, a sigla perdeu cadeiras no parlamento e não conseguiu atingir os requisitos necessários para manter o acesso ao fundo partidário e à propaganda gratuita.
Impacto da cláusula de barreira e desempenho regional O partido não alcançou a chamada cláusula de barreira, regra que restringe o acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de rádio e TV para legendas que não elegerem ao menos 13 deputados em nove estados, ou que não somarem 2,5% dos votos válidos para a Câmara nessa mesma quantidade de unidades federativas, com um patamar mínimo de 1,5% em cada uma delas. Embora a federação PSOL/Rede tenha superado o percentual nacional exigido, a marca mínima estadual foi atingida em apenas oito estados.
Nomes de peso como Erika Hilton e Sâmia Bomfim, ambas em São Paulo, além de Jones Manoel, em Pernambuco, registraram votações expressivas, mas não conseguiram puxar colegas para o parlamento. Um caso emblemático ocorreu no Distrito Federal, onde o deputado Fábio Felix foi o candidato mais votado, mas terminou o pleito sem nenhum colega de partido eleito. Para alcançar o quociente eleitoral necessário na região, a federação precisava de pouco mais de 207 mil votos, marca que o parlamentar atingiu sozinho, evidenciando a falta de distribuição entre os demais concorrentes da legenda.
Dificuldades na estratégia e recusa de federação Para especialistas, o resultado revela falhas no planejamento eleitoral proporcional. Questionada sobre o cenário, a deputada reeleita Sâmia Bomfim avalia que é difícil traçar estratégias para atrair votos motivados por opinião pública. “É muito difícil calcular quantos votos um candidato terá quando não é eleição por máquina, território ou aparato”, disse.
Na visão do professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB) Frederico Bertholini, a situação de nomes como Fábio Felix representa uma vitória individual parcial que evidencia a necessidade de maior organização. “Para o político, é um resultado pessoal muito legal, mas é uma vitória parcial que indica uma necessidade de planejamento”, pontua. Ele próprio havia comentado durante a campanha que não podia abrir mão de nenhum apoio para alcançar o quociente da legenda.
No início do ano, o PSOL recusou uma proposta de federação com o PT para preservar sua independência. Projeções indicam que uma aliança poderia ter ajudado a sigla a superar a cláusula de barreira e a conquistar mais cadeiras em estados estratégicos como São Paulo, mesmo gerando trocas na composição das vagas.
Judicialização e concentração de recursos Para reverter o quadro e recuperar o acesso aos recursos públicos, o PSOL levou o caso à Justiça Eleitoral. A estratégia aposta em uma retotalização de votos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no Espírito Santo, onde a federação ficou a apenas 185 votos do patamar estadual exigido, sob a acusação de existência de candidaturas laranjas. “Vamos lutar para provar na Justiça que algumas dezenas de votos não são justificáveis para retirar os direitos de funcionamento de dois dos principais partidos da política brasileira”, diz o PSOL em nota.
Especialistas apontam que a concentração de verbas em figuras centrais contribuiu para o revés. Em Brasília, por exemplo, a candidatura de Fábio Felix recebeu cerca de R$ 2,3 milhões, enquanto outros nomes da coligação contaram com fatias muito menores. O diretor de marketing Fabio Eloi ressalta que o problema atingiu outras siglas de esquerda, como o PDT: “Os partidos concentraram os investimentos nesses supostos puxadores de votos, acreditando que os candidatos menos relevantes atingiriam quantidade de votos suficientes para superar o quociente, e isso não se concretizou”.
Além da distribuição de recursos, o domínio das plataformas digitais e a presença de bases locais consolidadas, como ocorre no Partido Liberal com o apoio de prefeitos e vereadores, foram apontados como fatores diferenciais para o sucesso de outras legendas nas urnas. O debate sobre a renovação de quadros e a capilaridade eleitoral segue como um dos principais desafios para o futuro da esquerda brasileira.










