O primeiro turno das eleições de 2026 contabilizou 33 milhões de cidadãos que optaram por não comparecer às urnas, alcançando uma marca de 21,08% de ausência. Esse índice representa o maior patamar de abstenção registrado em um primeiro turno presidencial desde o pleito de 1998, quando 21,49% dos eleitores deixaram de votar na reeleição de Fernando Henrique Cardoso (FHC). Embora o voto seja obrigatório no país para a faixa etária compreendida entre 18 e 69 anos, o crescimento do absenteísmo tem sido notado de forma gradual desde 2018.
Fatores de desestímulo e barreiras logísticas
Entre os motivos que explicam a abstenção recorde, especialistas destacam o desgaste gerado pela polarização política. Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), aponta que a alta rejeição dos principais candidatos — Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) — fomenta um clima de apatia.
“A percepção de que o voto já não é capaz de produzir mudanças concretas favorece o afastamento do eleitor das urnas. A abstenção elevada é um sinal desse distanciamento entre a política e o eleitor”, diz Medeiros.
Além do descontentamento ideológico, dificuldades práticas e burocráticas também pesaram na decisão de milhões de brasileiros. Questões como a complexidade para transferir o domicílio eleitoral, problemas de acessibilidade em locais de votação com escadarias e zonas excessivamente cheias e desorganizadas foram relatadas por cidadãos que acabaram impedidos ou desestimulados de exercer a cidadania.
Impacto regional e o desafio do segundo turno
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os maiores volumes de faltosos se concentraram na região Sudeste, com 15 milhões de ausentes (22,7%), seguida pelo Centro-Oeste, que registrou 21,7% de abstenção. Em contrapartida, o Nordeste apresentou a menor taxa proporcional, com 18,4% de eleitores ausentes, totalizando 8 milhões de pessoas.
Para a próxima etapa do pleito, a mobilização dos eleitores que ficaram em casa torna-se um obstáculo central, principalmente porque a ausência no primeiro turno não impede o voto na etapa seguinte. No entanto, o cenário tende a ficar mais complexo, conforme avalia o analista da UnB.
“O segundo turno acende um alerta ainda maior para a abstenção. Com 21 governos estaduais definidos, a eleição presidencial será a única disputa em grande parte do país”, explica o cientista político.
“Isso esvazia a mobilização política nos estados, desestimula o engajamento das lideranças locais e enfraquece as estruturas de campanha responsáveis por levar o eleitor às urnas”, disse Medeiros.
Por fim, o especialista ressalta que o apelo para reverter esse quadro não beneficia automaticamente nenhuma das candidaturas em disputa, uma vez que o comportamento futuro dos faltosos permanece incerto.
“Aumentar o comparecimento, portanto, não significa aumentar os votos de Lula. Tudo depende do perfil político de quem ficou em casa”, afirmou Medeiros.
“Embora o voto seja obrigatório no Brasil, a multa pelo não comparecimento é irrisória. O custo e as dificuldades para chegar às urnas, especialmente para eleitores de renda mais baixa, superam o valor da própria penalidade”, conclui.










