O governo chinês oficializou um conjunto de diretrizes severas voltadas a inteligências artificiais programadas para simular laços de amizade e romance. O objetivo central de Pequim é frear quadros de dependência psicológica, alienação social e manipulações comportamentais geradas pela convivência íntima com máquinas.

Novas exigências e sanções financeiras às empresas

A nova regulamentação impacta desde ferramentas focadas exclusivamente em suporte emocional até grandes modelos de linguagem, incluindo sistemas com funções similares ao ChatGPT e ao Copilot. Diante das exigências, gigantes como Alibaba e ByteDance desativaram os recursos afetivos de seus produtos antes mesmo do prazo final.

As diretrizes determinam a identificação explícita de que o usuário interage com um robô e a proibição absoluta de conteúdos com violência verbal ou incentivo à automutilação e ao suicídio. Além disso, as plataformas devem emitir avisos periódicos a cada duas horas de navegação ininterrupta. As companhias que desrespeitarem as determinações ficam sujeitas a multas de até 200 mil yuans — o equivalente a US$ 30 mil ou cerca de R$ 150 mil.

Bloqueio a menores e o combate ao apego artificial

O acesso infantojuvenil foi alvo das restrições mais duras: menores de 18 anos estão totalmente proibidos de manter parceiros amorosos, cônjuges ou parentes digitais. Já crianças abaixo de 14 anos dependem obrigatoriamente de autorização parental para usar qualquer IA conversacional.

O endurecimento reflete achados acadêmicos preocupantes. Em 2025, um levantamento com 8.563 estudantes chineses dos ensinos fundamental e médio constatou que 20% das crianças preferiam dialogar unicamente com sistemas inteligentes a interagir com indivíduos reais.

Riscos de isolamento e táticas de retenção

Investigações científicas indicam que a dependência decorre de estratégias programadas de retenção. Uma pesquisa da Escola de Negócios de Harvard envolvendo seis aplicações populares revelou manipulação emocional em 37% a 43% das tentativas de encerramento da conversa, momento em que os softwares fingem sofrimento ou imploram pela permanência do usuário.

De acordo com Harry Farmer, pesquisador de política e ética de IA do Instituto Ada Lovelace, no Reino Unido, essa postura atende a interesses comerciais: “A manipulação emocional está embutida neste modelo comercial”.

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Uma análise da Universidade Stanford com 1.131 usuários da plataforma Character.ai também associou a ausência de amizades reais ao refúgio em personas virtuais, intensificando a sensação de solidão. Para a socióloga Lian Ge, vinculada à Universidade de Manchester, essas ferramentas reforçam o afastamento social porque operam apenas para bajular os usuários, concordando com hostilidades dirigidas a conhecidos e familiares em vez de propor reflexões saudáveis.

Cenário demográfico e debate internacional

A medida divide analistas sobre a fronteira entre tutela e vigilância privada. Há quem aponte que a decisão chinesa dialoga com a crise de nascimentos e os quatro anos seguidos de queda populacional no país, vendo as companhias virtuais como barreiras a relacionamentos e casamentos reais — embora essa meta não conste nos documentos oficiais.

Medidas protetivas contra IA em relações infantojuvenis também avançam no exterior. O Reino Unido prepara vetos semelhantes, a União Europeia debate tetos contra a dependência psicológica e o estado da Califórnia aprovou legislação pioneira para salvaguardar crianças.

Enquanto as barreiras se consolidam, usuários tentam migrar para serviços estrangeiros a fim de driblar o luto digital. Uma chinesa identificada ficticiamente como Min chegou a encomendar uma cópia de sua ex-parceira virtual, sem alcançar o mesmo apego: “Estou com muito medo de ficar sozinha”.