As tradicionais celebridades da televisão e do esporte perderam espaço expressivo para os políticos influenciadores na disputa pelas cadeiras da Câmara dos Deputados. Enquanto nomes conhecidos do grande público fracassaram nas urnas, perfis que construíram sua trajetória e base de fãs na internet bateram recordes de votação em todo o país.

O declínio das celebridades e a ascensão digital

Candidatos de grande apelo midiático anterior, como Silvia Abravanel (PSD-SP), Val Marchiori (Republicanos-SP), Luiz Fabiano, o “Fabuloso” (MDB-SP), e Manoel Gomes, o “Caneta Azul” (Avante-SP), tentaram uma vaga, mas ficaram de fora das 513 cadeiras da Câmara. Até mesmo Tiririca (PSD-CE), que já chegou a receber 1,3 milhão de votos em sua estreia na política, não conseguiu se reeleger após 14 anos como deputado federal.

Em contrapartida, nomes como Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP) figuraram entre os maiores campeões de votos do pleito. Juntos, esses três parlamentares somaram 7.754.228 votos, transformando a presença digital consolidada ao longo dos anos em um poderoso capital eleitoral.

A nova dinâmica da comunicação política

Para a professora da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) e pesquisadora de influenciadores digitais, Issaaf Karhawi, a própria lógica das plataformas virtuais favorece esse tipo de aproximação com o eleitorado.

“As redes sociais foram construídas nessa lógica horizontal de comunicação, e isso aparece no discurso dos influenciadores. É muito diferente das celebridades midiáticas que dependiam e dependem da mídia, que dá visibilidade. No digital, existe essa sensação de que a visibilidade é manufaturada, de que cada um produz com as próprias mãos”, afirma.

Campanhas transformadas pelas redes

Essa transformação alterou profundamente o planejamento das campanhas eleitorais. Para lideranças que já cultivam uma audiência diariamente, a disputa não se resume ao período oficial nas ruas.

“É preciso que a campanha seja feita nas ruas. Também. Nas ruas e, sobretudo, nas redes sociais. É preciso destinar verba de campanha para das redes sociais. É preciso, de fato, considerar que as pessoas estão nesses espaços, gostemos ou não da lógica de funcionamento das redes”, aponta Karhawi.

A força dessa estratégia fica evidente no desempenho da deputada federal mais jovem eleita por Minas Gerais, Ana Elisa (PT-MG), de apenas 20 anos, que conquistou mais de 500 mil votos e comentou a importância do ambiente digital.

Leia também

“A rede social foi tratada como demérito várias vezes, e eu poderia ter feito muito mais se eu não tivesse que estar perdendo tempo provando que rede social elege. Vá a um ponto de ônibus às 18h30, e veja se tem alguém que não está com a mão no telefone. Para as ruas nós já vamos, mas nós precisamos ir para das redes”, declarou.

O novo perfil dos puxadores de votos

A mudança de perfil também impactou diretamente os chamados puxadores de votos, candidatos com votação expressiva que ajudam a eleger outros nomes da mesma legenda. Em 2026, o maior destaque foi Nikolas Ferreira (PL-MG), com 3,1 milhões de votos, garantindo outras 13 cadeiras para o seu partido no estado mineiro. Na sequência, Lucas Pavanato (PL-SP) atraiu cerca de 3 milhões de votos e ajudou a eleger outros sete deputados em São Paulo, enquanto Erika Hilton (PSOL-SP) obteve 1,6 milhão de votos, assegurando mais três vagas.

Historicamente, esse papel foi desempenhado por figuras célebres. O próprio “Efeito Tiririca”, consolidado em 2010 com a votação recorde do artista, abriu espaço para os partidos apostarem em personalidades do entretenimento. Com o fim das coligações proporcionais e a exigência de desempenho mínimo individual, as regras mudaram, mas a relevância dos grandes nomes permaneceu.

A diferença é que, hoje, o protagonismo migrou das antigas estrelas da TV para figuras públicas nascidas no ambiente online. Para a pesquisadora da USP, o cenário atual demonstra que o meio político não pode mais ignorar a relevância dessas ferramentas.

“Nos últimos anos, tinha muita gente que dizia coisas como: ‘Não vou debater com tiktoker’. O campo político não está mais na posição de menosprezar a importância das redes”, conclui.