Diariamente, no sul da França, dezenas de felinos participam de testes minuciosos de palatabilidade em um centro especializado da Royal Canin, onde especialistas monitoram preferências alimentares e o entusiasmo com que os animais consomem diferentes fórmulas de ração.
O mercado global de alimentos para animais em alta Fabricantes globais de alimentos para animais intensificam investimentos científicos para compreender o paladar de cães e gatos, respondendo a uma demanda crescente de tutores que tratam seus bichinhos como verdadeiros membros da família. Mesmo diante de cenários inflacionários impulsionados por conflitos internacionais e descompassos salariais, o setor de cuidados pet segue em forte expansão, motivado também pela onda de adoções em massa ocorridas durante a pandemia de 2020.
Com os animais atingindo a meia-idade, a indústria redireciona esforços para desenvolver rações focadas em aliviar dores articulares, fortalecer musculaturas e proteger a função cognitiva. “O envelhecimento é uma das maiores oportunidades”, declarou Cécile Coutens, presidente da Royal Canin. Como reflexo disso, o mercado absorve linhas que incluem mousses extramacias para pets idosos e suplementos voltados a preservar a saúde cerebral e combater sintomas de demência.
Preferências felinas e inovação científica Apesar de os gatos exigirem abordagens mais criativas na hora da alimentação, o segmento de rações secas convencionais sofreu reajustes com a inflação, embora as prateleiras registrem forte proliferação de produtos especializados e de qualidade comparável à humana. Dados da NielsenIQ apontam que os gastos com ração para gatos nos Estados Unidos superaram a marca de 17 bilhões de dólares no último ano, representando um salto de 14% em relação a dois anos antes, enquanto as vendas de comida para cães permaneceram estáveis.
O comportamento alimentar dos felinos exige forte investimento em tecnologia. “Gostamos muito de gatos porque eles também são mais seletivos para comer, de certa forma. Por isso, é preciso mais ciência e tecnologia para atender a essa característica com sucesso”, pontuou Philipp Navratil, CEO da Nestlé, em conferência realizada em junho. Nos bastidores de gigantes como Nestlé e Mars, centros de pesquisa analisam desde o nível de energia dos bichos até a qualidade de suas fezes, avaliadas em uma escala numérica rigorosa. “A menor pontuação seria diarreia”, pontuou Yannick Soulard, colaborador da área de inovação da empresa.
Anatomia do gosto e expansão de mercado O mapeamento do paladar revela curiosidades biológicas fundamentais para a criação de novos produtos. Segundo Scott McGrane, especialista do Waltham Petcare Science Institute, pesquisas demonstraram que os gatos possuem o receptor de sabor umami, permitindo identificar compostos associados a esse gosto. O atum, por exemplo, apresenta uma combinação única que funciona como um “superumami” para os felinos. Em contrapartida, com o avanço da idade, a perda de receptores gustativos faz com que o amargor se destaque, exigindo fórmulas que mascarem esse gosto indesejado, conforme explicou Silvia Miret-Catalan, vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento da Royal Canin.
Controlada pela Mars — corporação tradicionalmente associada a doces como Snickers, M&M’s e Skittles —, a Royal Canin integra um império que há quase um século atua no setor pet e hoje comanda milhares de clínicas veterinárias globalmente. Analistas do mercado apontam que a tendência de envelhecimento populacional dos animais de estimação continuará impulsionando fortemente os negócios do setor nos próximos anos, consolidando uma indústria cada vez mais sofisticada e voltada ao bem-estar animal.










