O retrospecto das disputas pelo Palácio do Planalto carrega um padrão que dura mais de três décadas: desde a redemocratização, nenhum candidato que fechou a votação inicial em segundo lugar conseguiu reverter o placar no confronto direto. Em todas as sete eleições presidenciais que precisaram de segundo turno a partir de 1989, quem ficou na frente na primeira fase acabou consolidando a vitória nas urnas.

Cenário de 2026 põe escrita eleitoral à prova

Esse tabu ganha novos holofotes diante do equilíbrio verificado nas intenções de voto entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Levantamento divulgado pela Quaest apontou Lula com 39% e Flávio com 34% no primeiro turno, enquanto ambos registram empate em 42% na simulação de segundo turno.

Essa é a décima eleição geral do Brasil desde a redemocratização e promete ser uma das mais acirradas da história, afirmou Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB).

Margem entre concorrentes tende a encolher na etapa final

Embora a liderança tenha sido preservada ao longo dos anos, os dados mostram que a vantagem obtida no primeiro turno costuma diminuir no embate direto. Em 2014, Dilma Rousseff (PT) superou Aécio Neves (PSDB) por mais de oito pontos no primeiro turno (41,59% a 33,55%), mas viu essa margem cair para 3,28 pontos na rodada decisiva, triunfando por 51,64% a 48,36%.

O mesmo fenômeno de compressão ocorreu no pleito de 2022. Lula liderou a primeira etapa com 48,43% frente a 43,20% de Jair Bolsonaro — uma distância de 5,23 pontos percentuais. Na votação final, o petista venceu por 50,90% a 49,10%, estreitando a vantagem para 1,8 ponto.

A exceção recente a esse estreitamento ocorreu em 2018, quando Jair Bolsonaro saltou de 46,03% no primeiro turno para 55,13% no segundo, superando Fernando Haddad (PT), que passou de 29,28% para 44,87%.

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Vantagem inferior a cinco pontos eleva peso da abstenção

De acordo com o cientista político, se a distância entre Lula e Flávio ficar abaixo de cinco pontos percentuais no domingo, fatores como comparecimento do eleitorado, contingente de brancos e nulos e engajamento partidário ganham força determinante no resultado.

Há uma chance hoje muito real de presenciarmos uma virada no segundo turno, afirmou o cientista político.

A sensibilidade do comparecimento ficou evidente na eleição de 2022, na qual a abstenção variou pouco — de 20,95% no primeiro turno para 20,59% no segundo —, em uma disputa resolvida por uma diferença de apenas 2,1 milhões de sufrágios.

Apesar do retrospecto histórico favorável aos líderes da etapa inicial, o segundo turno inaugura uma dinâmica própria. Com a redistribuição dos votos de postulantes eliminados e a repactuação de alianças políticas, margens reduzidas ampliam a imprevisibilidade da reta final da corrida presidencial.