O Brasil registrou o período pré-eleitoral mais violento dos últimos dez anos, conforme apontou um levantamento conduzido pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global. Os dados mostram que os ataques motivados por questões políticas mantêm-se em patamares elevados mesmo nos intervalos em que não há disputa direta nas urnas.

O cenário da violência política no país Conforme o estudo “Violência Política e Eleitoral no Brasil”, produzido desde 2016, o país contabilizou uma agressão a cada 44 horas fora do calendário eleitoral, estabelecendo o maior patamar da série histórica.

“A pesquisa mostra que inclusive grupos criminosos e até mesmo policiais estão entre os responsáveis pelos atos de violência. Estamos diante de um cenário que ameaça não apenas a vida de representantes políticos, mas também o funcionamento das instituições democrática”, afirma Glaucia Marinho, diretora executiva da Justiça Global.

O monitoramento mapeou 354 ocorrências, o que representa um crescimento de 18,4% em comparativo com os 299 episódios contabilizados na etapa pré-eleitoral anterior, encerrada em agosto de 2024. O intervalo analisado compreende os meses entre 28 de outubro de 2024 — dia posterior ao segundo turno das eleições municipais — e 15 de agosto de 2026, véspera do início da propaganda eleitoral.

Alvos principais e letalidade dos ataques Do total de notificações, 96%,3% dos casos ocorreram contra quem já exercia mandato ou cargo público. Além disso, conforme o levantamento, 63% dos casos concentraram-se na política municipal, com vereadores e prefeitos.

No recorte de gênero, mulheres cis, travestis e transexuais somam 50,6% dos alvos, totalizando 176 episódios, embora representem apenas cerca de 18% das cadeiras nas casas legislativas brasileiras.

Em relação à letalidade dos ataques, 24 dos 28 episódios com intenção de matar – incluindo 10 dos 11 assassinatos e 14 dos 17 atentados registrados – ocorreram contra agentes políticos locais.

Tipos de agressão e estados mais afetados O estudo aponta que as violências mais frequentes são: – Ameaça, com 193 casos – Ofensa, 71 casos – Agressão, 51 casos – Atentado, 17 casos – Assassinato, 11 casos – Criminalização, 6 casos – Invasão, 5 casos

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Os estados com maior incidência de notificações foram São Paulo (67), Paraná (31) e Ceará (29). Apenas 2,5% dos episódios, 9 dos 354, resultou em alguma punição do agressor.

Dados da Central de Atendimento à Mulher Em paralelo, a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) contabilizou 1.564 chamados relacionados à violência política entre janeiro e agosto de 2026. O total de violações chega a 1.581, visto que uma única denúncia pode englobar múltiplas condutas do mesmo infrator.

O mês de janeiro concentrou o maior volume de registros, com 263 queixas, antecedendo abril (249) e fevereiro (215). Geograficamente, São Paulo encabeça a lista com 430 casos, seguido por Rio de Janeiro (260), Minas Gerais (149), Bahia (89), Rio Grande do Sul (62), Paraná (61) e Santa Catarina (56).

No perfil das vítimas registradas pelo canal, 842 denúncias (53,84%) envolveram mulheres negras, pretas e pardas, 590 (37,72%) mulheres brancas e 132 (8,44%) corresponderam a outras classificações de raça e cor.