Uma eventual ofensiva do governo contra as bets pode colocar o presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), diante de uma equação eleitoral. A medida pode ser popular entre mulheres e evangélicos, mas tem potencial de provocar forte resistência entre jovens e parte do público masculino ligado ao esporte.

A estratégia política por trás do debate

A avaliação é de Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), e João Paulo Machado, analista de política da XP. Para eles, o efeito dependerá principalmente do alcance das restrições que o governo decidir adotar. Na última quarta-feira (23), o presidente confirmou que o Planalto pretende proibir totalmente o funcionamento de apostas esportivas no Brasil. Nos bastidores, contudo, as alternativas discutidas iam desde uma restrição ampla até medidas mais específicas para cassinos virtuais ou limites de valores.

“O governo nessa reta final da campanha tenta dar uma cartada com um novo tema, um tema popular, que é compreensível pelo eleitor, que são as bets”, afirmou Medeiros.

Conexão com evangélicos e mudança no foco

Segundo Machado, a iniciativa dialoga com um segmento onde o petista enfrenta dificuldades, marcado pela rejeição às plataformas de apostas e pelo avanço recente de opositores.

“É uma decisão que o governo toma mirando esse eleitor, mas também, para além de mirar o eleitor, mirando a virada do ciclo de notícias”, declarou Machado.

A medida funcionaria como uma tentativa de deslocar o foco da opinião pública após semanas dominadas por temas negativos e investigações, cumprindo papel semelhante ao do recente reajuste do Bolsa Família.

Riscos entre jovens e torcedores

Por outro lado, especialistas apontam que o rigor da proibição pode surtir o efeito oposto em parcelas fundamentais do eleitorado, como os entusiastas do esporte e a juventude.

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“É um aceno ao público feminino, aos evangélicos”, pontuou Medeiros, ponderando logo em seguida: “Vamos ver qual vai ser o tamanho, o grau de restrição do que vai ser lançado pelo governo, porque, ao mesmo tempo que é uma medida que pode trazer um impacto eleitoral, também, a depender do grau da medida, pode trazer alguns reveses para parcelas do eleitorado, público masculino, pessoal que está muito ligado ao esporte”.

Machado reforça que o impacto atingiria a faixa etária mais jovem e conectada às modalidades patrocinadas por essas empresas. “Também pode gerar reflexos em um eleitorado mais jovem, que é quem mais lida com esse tipo de instrumento, de ferramenta, com pessoas que são mais próximas ao esporte”, disse o analista.

Desafio na reconquista da base perdida

O distanciamento dos jovens em relação ao atual mandato é um obstáculo mapeado desde 2022, junto com moradores do Sudeste, classes de renda intermediária e pessoas com ensino médio completo. Programas sociais anteriores tentaram sanar essa lacuna, mas esbarraram na pressão inflacionária e na frustração com a mobilidade social.

“Por mais que eles tenham estudado mais do que a geração de seus pais, avançado em termos educacionais, o ganho profissional de renda não foi proporcional ao que ele estudou”, concluiu Medeiros.