Por Mesael Caetano – Advogado

A história do Brasil é marcada por uma ferida que nunca cicatrizou: a cor da pele ainda define quem vive, quem morre, quem é seguido no mercado, quem é encarado com desconfiança, e quem é considerado “suspeito” antes mesmo de existir motivo. É doloroso dizer isso em pleno século XXI, mas é necessário. Porque, enquanto não for dito, continuará sendo naturalizado.

Os dados falam por si. A cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, mais de 70 são negras. O sistema penal encarcera jovens negros em proporção muito maior do que qualquer outro grupo. Os empregos mais precarizados, os salários menores e as maiores taxas de violência recaem sobre o mesmo corpo: o corpo negro.

Não é coincidência. É projeto.

Desde a escravidão, o Estado brasileiro construiu a imagem do negro como ameaça. Depois da abolição formal, criou leis e práticas sociais para controlar, excluir e punir corpos negros que ousassem existir fora das senzalas. Da polícia do século XIX ao sistema carcerário de hoje, a lógica permaneceu: “toda carne preta é suspeita”.

Essa suspeita se renova diariamente nas abordagens policiais sem motivo, nos olhares cruzados nos elevadores, nos assentos vazios ao lado no ônibus, nos currículos recusados, nas escolas que negligenciam talentos negros, na mídia que criminaliza o jovem pobre antes mesmo do boletim de ocorrência.

O racismo brasileiro não é apenas estrutural — é institucional, cotidiano e mortal.

Como advogado e como homem negro, sei que essa realidade não é teoria acadêmica. Ela atravessa vidas. Ela mata esperanças. Ela destrói famílias. Ela cria uma sociedade em que a cor da pele determina a probabilidade de alguém voltar para casa vivo.

Leia também

E se há algo que o Direito ensina é que toda injustiça sistemática precisa ser denunciada, contestada e confrontada. Porque não basta reconhecer o racismo: é preciso combatê-lo onde ele se manifesta — no Judiciário, no sistema policial, no mercado de trabalho, na política, na comunicação, na educação.

A carne negra não é suspeita.
Suspeito é um país que, em pleno 2025, ainda trata seu povo como inimigo.

O Brasil só será uma nação verdadeiramente democrática quando o povo negro puder viver sem medo, andar sem vigilância, sonhar sem impedimentos, existir sem pedir

Por Mesael Caetano
Advogado – Especialista em Igualdade Racial
Atuação nas áreas Cível e Trabalhista