O futuro presidente do Brasil enfrentará desafios cruciais ligados à inteligência artificial, data centers, soberania digital, terras raras, mudanças climáticas e transição energética. Para entender como os candidatos lidariam com essas demandas, o debate estratégico ganha relevância no cenário político atual.
Estratégias tecnológicas em foco As visões sobre o desenvolvimento tecnológico e a regulação digital dividem os presidenciáveis. Enquanto o plano de Luiz Inácio Lula da Silva aposta em uma reindustrialização verde com forte coordenação estatal, regulação do setor e criação de centros de transparência, a proposta de Flávio Bolsonaro prioriza a liberdade de inovar, a desregulamentação, o incentivo a patentes e a atração de capital privado, com forte ênfase na produtividade do agronegócio e eficiência pública.
Visão dos especialistas sobre o setor Para JB Queiroz Filho, a diferença entre as propostas está na maneira como cada candidato pretende desenvolver o setor tecnológico brasileiro. Ele resume a estratégia de Lula como uma iniciativa que “olha com mais intensidade para a construção do motor e para as regras de voo”, enquanto o projeto de Flávio Bolsonaro “enfatiza a pista que permite acelerar”.
O especialista ressalta que o país precisa combinar essas duas frentes. “O Brasil precisa do motor, da pista e, principalmente, de empresas capazes de voar para o mundo”. Além disso, ele faz um alerta sobre a necessidade de agregar valor à produção local: “Na economia digital, não podemos correr o risco de produzir o grão e comprar a cápsula”.
Thiago Muniz aponta que as exigências de contrapartidas podem ampliar os benefícios internos, mas impactam os custos dos projetos. Já Lucas Reis compara a abordagem de Flávio Bolsonaro à postura liberal dos Estados Unidos e o plano de Lula ao modelo europeu de proteção de direitos, destacando a complexidade na fiscalização de algoritmos. O pesquisador observa que até empresas de tecnologia dos Estados Unidos, onde a abordagem é mais liberal, reconhecem a necessidade de regras. “Hoje em dia, nos Estados Unidos, as próprias plataformas têm pedido algum grau de regulamentação para tentar mitigar riscos de segurança”, afirma.
Minerais críticos e terras raras No setor mineral, o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras. A candidata petista propõe a criação da Política Nacional de Minerais Críticos sob gestão estatal, exigindo que o refino ocorra no Brasil, transformando o Nordeste em um polo industrial. Em contrapartida, a chapa liberal aposta em licenciamento ambiental ágil, abertura ao capital externo e alianças com Estados Unidos e Israel.
Álvaro Machado Dias aponta o desafio central da área: “O problema das terras raras não é nem geológico, nem de dinheiro, mas químico. O Brasil tem total capacidade de desenvolvimento técnico para esse tipo de coisa”. Na visão de Álvaro Machado Dias, a orientação da proposta de Flávio Bolsonaro funciona como uma tentativa de “colocar o Brasil dentro do bloco americano como a mina confiável”.
Clima e transição energética Na pauta ambiental, Lula defende a redução de emissões e o fortalecimento de órgãos de fiscalização, enquanto Flávio Bolsonaro aposta no Programa Nacional de Segurança Energética vinculado à iniciativa privada e ao cumprimento do Código Florestal. O físico Paulo Eduardo Artaxo Netto avalia os avanços recentes e pondera os desafios: “Tivemos uma redução do desmatamento da Amazônia em 51%, que é um valor extremamente elevado. Nenhum outro país reduziu as suas emissões com a magnitude que o Brasil reduziu”.
Apesar disso, ele aponta lacunas: “Agora, nós temos que avançar na questão, por exemplo, da implementação da transição energética, que ainda está realmente engatinhando no Brasil, infelizmente, e é fundamental que, se reeleito, Lula efetivamente implemente políticas que façam da transição energética um ponto central da questão climática como um todo”. Sobre o adversário, Artaxo argumenta que “Governos de extrema direita, como o possível governo de Flávio Bolsonaro, são conhecidos por não tratar adequadamente a questão das mudanças climáticas, inclusive com uma postura negacionista de negar que elas existem e de, essencialmente, priorizar a exploração o máximo possível dos recursos naturais sem efetivamente cuidar dos interesses da população como um todo”.
O pleito deste domingo definirá qual direção o país seguirá na consolidação de sua infraestrutura digital, preservação ambiental e independência econômica nos próximos anos.










