Uma eventual restrição dos Estados Unidos às exportações de diesel pode criar um novo problema para a economia brasileira: embora seja exportador de petróleo, o Brasil ainda depende do exterior para atender parte relevante de seu consumo de combustíveis refinados. E, após a redução das compras da Rússia, os americanos se tornaram o principal fornecedor de diesel importado pelo país.

Vulnerabilidade na importação de derivados O Brasil é exportador líquido da commodity, mas ainda precisa importar derivados para complementar o abastecimento doméstico, sobretudo diesel. Segundo estimativas do JPMorgan, aproximadamente 25% do diesel consumido no Brasil depende atualmente de importações. E os Estados Unidos responderam por mais de 70% das importações brasileiras do combustível em agosto, depois da redução das compras provenientes da Rússia.

Os riscos são vários, uma vez que a redução da oferta americana poderia provocar dificuldades de abastecimento, elevar os custos de transporte, pressionar setores como agronegócio, varejo e mineração e, em um cenário mais extremo, obrigar o país a priorizar o diesel disponível para atividades consideradas estratégicas, como o escoamento da safra agrícola.

Impactos e reações do governo O governo, contudo, afirma que o abastecimento está garantido. Para outubro, diante de uma demanda estimada em 3,950 milhões de metros cúbicos, há oferta confirmada de 3,978 milhões de metros cúbicos. O país também conta com estoques de 1,970 milhão de metros cúbicos. Desde março, o Ministério de Minas e Energia coordena uma mesa semanal de acompanhamento dos fluxos de importação e distribuição, com horizonte de dois meses.

Se a restrição americana provocar alta significativa do diesel internacional, o dilema brasileiro aumenta. Uma possibilidade seria deixar parte da elevação chegar aos preços domésticos, ampliando a pressão inflacionária. Outra seria aprofundar mecanismos de subsídio e controle do choque, elevando o custo fiscal.

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Consequências para o mercado acionário Para as ações brasileiras, porém, os efeitos seriam bastante diferentes. Na avaliação do Bradesco BBI, SLC Agrícola (SLCE3), São Martinho (SMTO3) e Jalles Machado (JALL3) aparecem entre os potenciais prejudicados por diesel mais caro. Na outra ponta estão Petrobras (PETR4), Rumo (RAIL3), distribuidoras de combustíveis e 3tentos (TTEN3), que podem encontrar compensações ou até benefícios no novo cenário.

Para a Rumo, o impacto direto sobre o Ebitda tende a ser limitado no curto prazo porque grande parte dos contratos já estava fechada até o fim do ano e os custos do diesel são repassados diretamente nesses acordos. Se os preços elevados persistirem, contudo, os fretes rodoviários poderiam aumentar, melhorando a posição competitiva da ferrovia.

Cenário internacional e dependência global Uma eventual restrição americana não seria um problema exclusivamente brasileiro. Os Estados Unidos são o maior exportador mundial de diesel e ganharam participação no comércio global após os conflitos reduzirem a disponibilidade de produtos provenientes da Rússia e do Oriente Médio, segundo o BBI. Com restrições nos fluxos pelo Estreito de Ormuz e ataques a refinarias russas, a importância dos americanos como fornecedores para América Latina, Europa e Ásia aumentou, o que pode elevar os crack spreads globalmente e, em um cenário mais agudo, provocar destruição de demanda.