Com a proximidade da transição para o novo modelo de cobrança sobre o consumo, que envolve o IBS e a CBS, uma parcela expressiva das corporações no país segue sem calcular os reflexos financeiros das novas regras.
Foco em tecnologia e esquecimento dos números
Um estudo recente conduzido pela ROIT indica que 34% das médias e grandes empresas ainda não fizeram nenhuma simulação sobre como as mudanças tributárias vão afetar o fluxo de caixa.
De acordo com Ricardo de Holanda Janesch, vice-presidente executivo da ROIT, muitas das companhias analisadas — algumas inclusive de capital aberto — têm concentrado seus esforços na adequação tecnológica, deixando em segundo plano a proporção dos impactos financeiros.
O executivo ressalta que o planejamento numérico é tão urgente quanto a adaptação dos softwares de emissão de notas. “Estão negligenciando em certa medida essa projeção de impactos financeiros. A gente sabe que emitir a nota é importante, os sistemas são importantes, mas entender os números, entender em que medida o fluxo de caixa será impactado, as demonstrações financeiras serão impactadas, também são importantes”, destacou.
Apesar da contagem regressiva, o especialista aponta que ainda há margem de tempo para reverter esse cenário, desde que a gestão corporativa coloque o tema no topo das prioridades. “Temos um prazo relativamente curto, mas a quantidade de informações que a entregamos para o governo e a organização das empresas permitem que a gente tenha uma base de dados sólida para conseguir fazer essa análise de impactos”, afirmou.
Riscos operacionais e problemas com capital de giro
A falta de preparação pode resultar em falhas graves de precificação, fazendo com que o negócio perca competitividade ao manter valores inadequados ou deixar de aplicar descontos estratégicos. Contudo, o obstáculo mais severo recai sobre a liquidez das organizações.
O levantamento aponta que 93% das empresas avaliadas devem enfrentar algum tipo de consequência negativa no capital de giro. O problema será potencializado no primeiro trimestre de 2027, período em que o desembolso imediato será maior devido à regra de aproveitamento posterior dos créditos tributários.
“Quem não entender que provavelmente entre janeiro e fevereiro do ano que vem vai precisar ter mais dinheiro disponível para fazer o giro da sua operação, provavelmente vai ter uma surpresa negativa no primeiro trimestre”, advertiu o executivo, lembrando que o cenário econômico atual é agravado pelos juros elevados.
Bases de dados desatualizadas e prioridades urgentes
Outro ponto crítico revelado pela pesquisa é que apenas 24% dos negócios possuem um banco de dados totalmente catalogado, auditado e limpo. Como a apuração da CBS passará a depender de automações sistêmicas e cruzamentos rigorosos de códigos, falhas cadastrais poderão gerar erros nos pagamentos e multas futuras.
Para reverter o quadro, a recomendação é seguir três passos fundamentais: dimensionar o tamanho do problema, limpar as bases de informação e treinar os colaboradores envolvidos.
“É muito difícil montar uma estratégia assertiva se a gente não entender qual o tamanho do impacto”, concluiu Janesch, reforçando que a nova legislação exige uma visão estratégica ampla de negócios, e não apenas o cumprimento burocrático de obrigações fiscais.










