O avanço nos rendimentos dos títulos de dez anos do Tesouro dos Estados Unidos para o patamar mais elevado em quase duas décadas desencadeou um movimento de cautela nos mercados internacionais. Impulsionada pela resistência da inflação norte-americana e pela perspectiva de novo arrocho monetário por parte do Federal Reserve (Fed), a valorização desses papéis soberanos — tidos como a aplicação financeira mais segura do planeta — afeta diretamente o fluxo de capital destinado aos mercados emergentes.

Pressão sobre o câmbio e o diferencial de juros

A perda de tração dos ativos brasileiros é decorrente de um descompasso no ciclo de políticas monetárias. Enquanto a economia doméstica dá sequência a cortes na taxa Selic, as principais potências globais mantêm posturas contracionistas. Segundo Elisa Machado, economista-chefe da KAT Investimentos, essa dinâmica atinge diretamente a renda fixa local indexada aos juros básicos.

“Quando a gente aqui está caindo juros e as principais economias do mundo estão subindo juros, a gente tem uma redução do diferencial de juros, que é justamente o que impulsiona as operações de carry trade, dinheiro externo que vem para o Brasil para aproveitar esses rendimentos elevados”, afirmou a economista.

Com menor atratividade para reter o capital internacional em busca de rentabilidade, o país enfrenta consequências secundárias na moeda. “Com essa redução do diferencial de juros, você cria uma tendência à desvalorização cambial no médio prazo e isso, em segunda ordem, afeta expectativas de inflação e a inflação em si”, alertou a economista.

Fim da trégua sazonal e riscos para a inflação

O cenário para os preços ao consumidor entra em um estágio mais desafiador. O Brasil começa a se distanciar de um ciclo sazonalmente benévolo e passa a encarar componentes que pressionam o IPCA na reta final do ano. Entre os fatores de risco apontados estão os reflexos climáticos provocados pelo fenômeno El Niño, as cotações internacionais do barril de petróleo próximas a 100 dólares e o encerramento do crédito referente ao bônus da hidrelétrica de Itaipu nas faturas elétricas.

Soma-se a esse quadro a rigidez verificada no segmento de serviços. As métricas continuam acima das metas estipuladas pelas autoridades monetárias, com destaque para a aceleração nos segmentos intensivos em mão de obra.

Leia também

Cautela na condução do Banco Central

Na visão de Machado, o relatório de política monetária mais recente da autarquia não trouxe alterações de rota substantivas em relação à ata e ao comunicado já divulgados. Diante do quadro internacional adverso e de incertezas geopolíticas, a instituição adota uma postura pragmática.

“O Banco Central continua se mostrando bastante data dependent, colocando riscos de alta e riscos de baixa”, disse.

Apesar da desaceleração já identificada nos setores de comércio varejista e indústria, o mercado de trabalho nacional permanece aquecido, demandando vigilância adicional do comitê de política monetária.

“Enquanto a gente não observar essa distensão no mercado de trabalho, a tendência é que esses preços continuem pressionados”, concluiu Machado, reforçando que a melhor estratégia para o Banco Central é seguir coletando dados e tomando decisões reunião a reunião.