O período compreendido entre o primeiro turno das eleições, realizado em 5 de outubro, e a reta final da disputa presidencial foi palco de uma das reavaliações mais intensas de ativos financeiros brasileiros nos últimos anos. A dianteira de Flávio Bolsonaro (PL) na primeira etapa do pleito motivou um forte movimento de valorização na Bolsa de Valores, no mercado de câmbio e na curva de juros, impulsionado pela expectativa de uma gestão econômica mais alinhada aos interesses do mercado e comprometida com o ajuste fiscal.
Ibovespa dispara e dólar cai após votação No primeiro pregão que sucedeu a votação, o Ibovespa registrou um salto de 7,7%, alcançando sua maior alta diária desde março de 2020 e ultrapassando a marca inédita de 200 mil pontos. Paralelamente, a moeda americana recuou mais de 4% frente ao real, enquanto os juros futuros apresentaram forte fechamento. O avanço foi liderado por instituições bancárias, redes varejistas, construtoras e companhias voltadas ao mercado de capitais.
Entre os principais destaques daquele momento estiveram B3 (B3SA3), XP (XPBR31) e BTG Pactual (BPAC11), que avançaram mais de 20%, além de Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3), com ganhos superiores a 10%. A avaliação predominante entre os investidores era de que uma alteração na liderança do país poderia atenuar o prêmio de risco embutido nos ativos locais e elevar a probabilidade de consolidação fiscal a médio prazo.
Por sua vez, os segmentos mais voltados ao consumo interno aproveitaram o alívio proporcionado pela retração nos juros futuros. Empresas sensíveis ao custo de capital, a exemplo de Magazine Luiza (MGLU3), C&A (CEAB3), Lojas Renner (LREN3), Cyrela (CYRE3) e MRV (MRVE3), figuraram entre as maiores altas do mercado acionário desde o início de outubro.
Queda de juros como motor principal da alta Apesar do protagonismo do noticiário político, analistas e instituições financeiras ressaltam que o verdadeiro combustível para o rali foi o recuo nas taxas de juros de longo prazo.
Projeções e visão de grandes bancos De acordo com o Goldman Sachs, cerca de 85% da valorização do Ibovespa após o primeiro turno pode ser explicada pela queda dos juros longos. O banco lembra que as ações mais sensíveis aos juros subiram entre 15% e 25% logo após a votação e vê paralelos com o comportamento observado após a eleição de 2018.
A instituição financeira manteve a projeção-base de 215 mil pontos para o índice, mas avalia que a marca de 225 mil pontos pode ser atingida caso o futuro governo demonstre disciplina fiscal rigorosa e estimule uma nova rodada de queda nos juros reais.
Na mesma linha, o UBS Wealth Management elevou a alocação em ações brasileiras, projetando um potencial adicional de valorização em torno de 25% para a Bolsa. O banco argumenta que a reprecificação inicial ainda não incorporou totalmente o cenário de reequilíbrio fiscal e diminuição estrutural do risco país.
Transição da euforia para a cautela A euforia observada nos primeiros dias pós-eleição deu lugar a uma fase de acomodação na semana seguinte. Com os levantamentos de intenção de voto apontando acirramento entre Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o mercado adotou postura de realização de lucros e redução de exposição a riscos elevados.
Essa mudança comportamental refletiu a compreensão de que os preços já haviam absorvido grande parte das expectativas positivas, exigindo agora clareza sobre a futura equipe econômica, diretrizes fiscais e efetividade na aprovação de reformas.
Fatores decisivos no radar dos investidores Apesar da volatilidade, o cenário traçado por grandes instituições permanece construtivo, desde que a credibilidade fiscal seja mantida pela próxima gestão. Nesse contexto, a atenção do mercado antes do segundo turno concentra-se em três pilares fundamentais.
O primeiro são as pesquisas eleitorais, que continuam a ditar o ritmo da volatilidade em ações, câmbio e taxas. O segundo diz respeito ao anúncio da equipe econômica e das medidas fiscais planejadas para o pós-eleição. Por fim, a temporada de balanços corporativos atua como termômetro para verificar quais companhias possuem capacidade real de sustentar o otimismo que impulsionou os ativos.










