Enquanto o mercado atual lida com restrições e debate os impactos das apostas esportivas, a história mostra que a relação entre economia e o fardamento dos clubes brasileiros caminha lado a lado há décadas, refletindo diretamente as crises e transformações industriais do país.
A chegada das marcas aos uniformes Autorizada em 1982 por uma portaria do Conselho Nacional de Desportos (CND), a inserção de marcas nas camisas surgiu em meio à inflação galopante como um projeto que poderia salvar financeiramente o futebol brasileiro. Inicialmente, a publicidade foi vedada na seleção principal. “Seleção brasileira é uma expressão de sentimento do povo e não ficaria bem servir como veículo de propaganda”, cravou o então presidente da CBF, Giulite Coutinho, ao Estadão, em maio de 1982.
A desindustrialização e o avanço estrangeiro Com a abertura de mercado e a falta de líderes industriais nacionais consolidados, empresas de fora ganharam espaço nos patrocínios entre o final da década de 1980 e os anos 1990. Para Paulo César Morceiro, doutor em Economia pela FEA-USP e pesquisador em Desenvolvimento Regional na Universidade de Utrecht, da Holanda, a presença de empresas de fora no mercado de patrocínios no futebol, a partir de meados da década de 1980 e durante a década de 1990, se deve a isso. “Está ligado ao nosso processo de desindustrialização. O Brasil cresceu muito com a indústria de São Paulo, depois passou a descentralizar”, explica o pesquisador, que também aponta o impacto da Terceira Revolução Industrial. “Isso permitia plantas (de fábricas) menores. Há deslocamento da indústria para o Leste Asiático”, diz.
O impacto do Plano Real e o auge automotivo A transição econômica da década de 1990 trouxe novas configurações globais. “É uma forte reconfiguração do mundo, que muda muito em relação a décadas anteriores. Esse é um efeito dominó, observado no Brasil, e coincide com a transição de Sarney para Collor, com discurso modernizante”, explica o professor do Insper e especialista em História Econômica do Brasil, Heleno Piazentini Vieira. O choque do Plano Real pegou a indústria nacional despreparada, abrindo espaço para parcerias emblemáticas como a da Parmalat com o Palmeiras, além da forte presença de montadoras como Fiat e Chevrolet nos uniformes.
Eletrônicos e a virada para os bancos Com a estabilidade econômica e o incentivo ao consumo nos anos 2000, o mercado interno cresceu. “O Plano Real arrumou a casa e fez partir para outro momento econômico. Muito mais próspero, olhando para outros momentos da nossa história. Mais próspero pelo crescimento mais robusto e que não gera inflação, como nos anos 1970. Mais bem fundamentado”, avalia Heleno Piazentini Vieira. Esse cenário impulsionou a chegada de empresas de telefonia e eletrônicos, seguida pelo protagonismo de bancos privados e estatais na década de 2010. O investimento público teve grande peso antes de sofrer retração. “Os braços públicos que aumentam seus gastos são de uma mentalidade política mais intervencionista, o que se esvazia com Guedes”, menciona Vieira, ao citar o corte do banco estatal.
O cenário atual das apostas esportivas Legalizadas em 2018, as apostas de quota fixa abriram espaço para o domínio recente das bets. Embora os aportes somassem R$ 1,14 bilhão em 2025 — representando 7,9% das receitas totais dos clubes —, apenas quatro equipes da Série A dependeram diretamente das bets para mais de 10% de seus ganhos no período: Corinthians, Flamengo, Sport e Juventude.










