Natural de Peabiru, no Noroeste do Paraná, Roger Sabin viaja o mundo ao lado da namorada Barbielly Bispo

O que era para ser apenas uma viagem de um mês até o litoral paulista se transformou em uma aventura que atravessou dois continentes. Natural de Peabiru, município de cerca de 13,3 mil habitantes no Noroeste do Paraná, Roger Sabins, de 27 anos, saiu de casa em 2021 para conhecer o mar. Cinco anos depois, chegou ao Alasca após cruzar 20 países e rodar mais de 100 mil quilômetros sobre uma motocicleta.

A jornada levou Roger por praticamente toda a América do Sul, América Central e América do Norte. No caminho, ele encontrou o amor, enfrentou uma das rotas mais perigosas do continente, dormiu em barracas e acumulou diversas experiências.

O primeiro destino foi Ubatuba, no Litoral Norte de São Paulo. A ideia era passar cerca de um mês na praia e retornar ao Paraná. Mas bastaram alguns dias para que os planos mudassem.

Cansado da rotina monótona de trabalhar em frente ao computador como designer gráfico, Roger decidiu prolongar a viagem. Na época, pilotava uma Honda Sahara 300 e nunca havia feito um deslocamento de longa distância. A primeira viagem, entre Londrina e Ubatuba, teve aproximadamente 850 quilômetros.

“Eu nunca tinha pegado a moto direito para viajar. Tinha rodado só pelo Paraná. Nunca tinha feito uma distância tão longa, não conhecia São Paulo e passei pela capital pela primeira vez. Foi uma loucura. Aprendi tudo na marra”, relembra.

Depois de conhecer o litoral paulista, ele seguiu explorando o Brasil de motocicleta, passando por Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Paraíba e outros estados. Ao concluir o percurso pela costa brasileira, ele decidiu seguir viagem.

O país que mudou completamente os planos do paranaense

Roger embarcou com a moto em Belém (PA) rumo a Manaus (AM), em uma travessia de sete dias pelo Rio Amazonas. Da capital amazonense, seguiu até a fronteira com a Venezuela.

O plano era apenas tirar uma fotografia na divisa e retornar. Mas bastou atravessar a fronteira para que tudo mudasse. O que seria apenas uma parada rápida virou uma permanência de quatro meses. Depois veio a Colômbia. Antes de cruzar a fronteira, outra decisão transformou novamente a viagem.

“Eu pensei: por que não? Já cheguei ao norte da América do Sul. Por que não ir até o extremo sul?”, conta Roger.

Foi assim que Roger percorreu Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e Argentina até chegar a Ushuaia, na Terra do Fogo.

No início da aventura, Roger percorria até 950 quilômetros em um único dia, enfrentando cerca de 15 horas seguidas de estrada. Com o passar do tempo, a prioridade deixou de ser a distância.

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Hoje, ele limita os trajetos a cerca de 500 quilômetros diários para aproveitar melhor cada cidade, paisagem e experiência ao longo do caminho.

Uma companheira de viagem inesperada

Foi durante um trabalho voluntário em Alter do Chão, no Pará, que Roger conheceu a bióloga Barbielly Bispo, de 26 anos.

Na época, ela havia acabado de se formar e viajava pelo Brasil para conhecer diferentes biomas antes de decidir sua área de especialização. O relacionamento começou como uma amizade. Roger já planejava seguir rumo ao Alasca quando resolveu fazer um convite que, segundo ele, parecia improvável.

“Chamei ela para viajar apenas pela Venezuela. A ideia era passarmos três meses juntos. Depois eu subiria para a América Central e ela voltaria para a América do Sul.”

O plano também mudou. Antes de conhecer Roger, Barbielly viajava como mochileira utilizando o programa federal ID Jovem, benefício que garante gratuidade ou desconto em passagens interestaduais para jovens de baixa renda.

“Pensei: será que vou mudar todos os meus planos? Viajar com uma pessoa que acabei de conhecer? Mas sempre escutei meu coração. Ele dizia para ir. Subi na garupa e fui para a Venezuela A gente nunca discordava sobre as aventuras, sobre descansar, fazer trilhas, conhecer cachoeiras. Continuou fazendo sentido porque eu também amo a natureza”, lembra Barbielly.

Dor, barracas e noites em casas de desconhecidos

Percorrer milhares de quilômetros sobre uma motocicleta exige resistência física. O casal relata dores frequentes nas costas, nas pernas, nas nádegas e o desconforto causado pelo uso contínuo do capacete.

Nem sempre há hotéis pelo caminho. As noites costumam ser divididas entre barracas e hospedagens oferecidas por moradores que recebem os viajantes voluntariamente.

Segundo eles, uma boa noite de sono é o principal remédio para recuperar o corpo, embora isso nem sempre seja possível. Os imprevistos também fazem parte da rotina. No México, Barbielly precisou ser internada durante dois dias após sofrer uma forte desidratação.

O problema ocorreu logo depois da travessia da Guatemala. Após enfrentarem temperaturas baixas em regiões montanhosas, o casal permaneceu cerca de quatro horas em uma fronteira sob calor intenso, o que agravou o quadro.

Apesar do susto, ambos afirmam que o episódio mais difícil aconteceu meses depois.

A travessia de 24 dias pela Selva de Darién

Em julho de 2025, Roger e Barbielly enfrentaram o maior desafio da expedição: contornar a região da Selva de Darién, localizada entre a Colômbia e o Panamá.

A área é conhecida internacionalmente por ser uma das rotas mais perigosas das Américas e frequentemente utilizada por migrantes que tentam chegar aos Estados Unidos.

Como não existe ligação terrestre contínua entre os dois países, a alternativa encontrada pelo casal foi embarcar em um cargueiro de madeira. Foram 24 dias até completar a travessia. Desse período, 14 dias foram passados em alto-mar.

“Era um barco de carga, sem coletes salva-vidas, sem assentos e sem lugar para dormir. Dormíamos em redes. Durante o dia ficávamos sentados sobre caixas de mercadorias. A estrutura era totalmente voltada para carga, não para passageiros”, relata Barbielly.

Depois da viagem marítima, ainda precisaram esperar mais dez dias em uma ilha antes de seguir viagem. Roger afirma que foi o único momento em que perderam completamente o controle sobre o roteiro.

“Tudo dependia do capitão. Se ele decidisse demorar dois ou três meses, não havia o que fazer. Inclusive, no começo daquele mesmo ano, esse capitão havia perdido um barco com motos e cargas durante uma tempestade.”

Fonte: https://www.bemparana.com.br/noticias/parana/conheca-o-paranaense-que-cruzou-20-paises-e-rodou-mais-de-100-mil-quilometros-de-moto/